Dândi, candidatas, bailarino e gatos

Notas curtas sobre A ROSA AZUL DE NOVALIS, VIRANDO A MESA DO PODER, E ENTÃO NÓS DANÇAMOS e CATS

A ROSA AZUL DE NOVALIS

Como já tinha feito com a atriz trans Julia Katharine em Lembro Mais dos Corvos, o diretor Gustavo Vinagre (agora em parceria com Rodrigo Carneiro) simplesmente se coloca como ouvinte de um personagem real situado no limite da autoficção. Marcelo Diorio, o protagonista de A ROSA AZUL DE NOVALIS, é um dândi gay e culto que se despe em vários sentidos diante da câmera enquanto reflete sobre seus desejos, sonhos e lembranças desta e de vidas passadas.

Marcelo tem razão quando se diz “uma pessoa densa”. Mais que isso, ele é fascinante na forma como saboreia seu misto de erudição e luxúria, seu gosto por coisas velhas e gente morta, sua tesão pelos caras com quem transa, suas histórias e fantasias que poderiam estar em filmes de Tarantino ou de Kenneth Anger. “Sou uma raposinha desgarrada com hábitos crepusculares”, pinta-se.

Elegia do ânus transcendental e do devaneio letrado, esse aparente filme-entrevista súbita e belamente passa do relato para a encenação, às vezes com um simples movimento da câmera. Mesmo quando isso não acontece, ficamos sempre no lusco-fusco entre vida e fabulação, entre a sublimação intelectual e o sexo cru e explícito. Aventura pela paisagem de uma mente surpreendente, prazer de contar e de gozar, deslizamento através de coisas que existem e ao mesmo tempo não. Como a rosa azul que o poeta romântico Novalis inventou na Alemanha do século XVIII. Marcelo jura que já foi ele. Quem garante que não?

(Leiam uma boa entrevista com os diretores)

VIRANDO A MESA DO PODER

No catálogo da Netflix, esse documentário de Rachel Lears está na disputa pelas indicações ao Oscar da categoria. Rachel e seu marido-parceiro Robin Blotnick (corroteirista e montador) acompanharam quatro candidatas ao Congresso americano na campanha de 2018, apresentadas pelas organizações de renovação política Justice Democrats e Brand New Congress. Com pautas progressistas, recusando doações empresariais e trabalhando no corpo a corpo em suas comunidades, elas desafiaram o status quo democrata nas primárias, representado por homens brancos e veteranos tubarões eleitorais.

Das quatro, só uma venceria as primárias, a atual deputada por Nova York e popstar da esquerda americana Alexandria Ocasio-Cortez. A ex-garçonete carismática de origem latina, olhos grandes e oratória efusiva é uma estrela pronta e acabada. O resultado das eleições fez dela a protagonista absoluta, eclipsando as demais a ponto de o filme nem mesmo informar o desfecho de uma das outras candidaturas.

A maior limitação de Knock Down the House é basear-se mais nas autoafirmações das candidatas que em suas ações de campanha. Com isso, ganha-se um perfil estimulante de ativistas comprometidas com as boas causas nas áreas da saúde, ecologia e representatividade popular, mas perde-se a oportunidade de saber como elas chegaram até ali e como lograram alcançar expressivos percentuais de votos, mesmo as derrotadas. A principal qualidade do trabalho de Rachel, sobretudo em relação a Alexandria, é ter estado com ela nos momentos mais excitantes e decisivos de uma campanha vitoriosa.

E ENTÃO NÓS DANÇAMOS

Esse raro filme georgiano a aparecer por aqui explora o contraste entre a masculinidade rígida da dança tradicional da Geórgia com os movimentos melífluos comumente associados aos homens gays. Dois estereótipos opostos, incapazes de conviver em harmonia. Apesar de excelente bailarino, Merab (o expressivo Levan Gelbakhiani) não se encaixa bem no rigor de movimentos exigido pelo seu corpo de baile. As coisas pioram quando ele se apaixona pelo novato Irakli (Bachi Valishvili), para desalento de Mary (Ana Javakishvili), sua amiga de infância e protonamorada.

Não custa muito a que esse choque de costumes se transforme num melodrama recheado de clichês sobre homofobia, abandono, depressão e piração. Não falta sequer o chavão do bailarino que arrisca seu futuro por causa do “mau comportamento” e de um pé machucado.

No pano de fundo, a Geórgia afigura-se como periferia da Europa, país de língua excêntrica e sociedade conservadora. A aparição de uma boate gay e de prostitutas travestis soa como fresta para uma porção “maldita” dessa antiga república soviética. Merab não aspira a uma coisa nem outra em seus saltos e rodopios. Afirmar sua identidade, dentro e fora do palco, tem um preço a pagar.

CATS

Embora já houvesse uma versão da peça de Andrew Lloyd Webber em vídeo (David Mallet, 1998), todos temiam pela hora em que CATS ganhasse as telas como filme de cinema. Essa hora chegou, e os temores não eram infundados. Na maior parte do tempo, o musical dirigido por Tom Hooper é mesmo o desastre anunciado pela crítica inglesa. Atores ridiculamente forrados de pelos com rabos em riste, dança de besouros e baratas, coreografias excessivamente acrobáticas e uma direção de arte deliberadamente feia, além de confusa na escala dos cenários, tornam o filme um zoológico de mau gosto.

A nova versão realça a cafonice do original, que se resume a uma sucessão de apresentações de gatos com diferentes personalidades, nenhuma delas especialmente atraente. A meu ver, Ian McKellen como o velho gato do teatro, tem o melhor momento do filme. Judi Dench me inspirou pena no papel da reverenciada Old Deuteronomy. Mas a gota d’água é, sem dúvida, a interpretação chorosa de Jennifer Hudson para a canção Memory, quando até as poltronas do cinema parecem querer abandonar a sala.

CATS tem algumas canções bonitas e o filme mobiliza talentos inegáveis no canto e na dança, mas tudo funciona bastante mal e enfatiza o que na peça já era ruim. Dos poemas de T.S.Eliot ao filme de Tom Hooper, a travessia tem sido penosa. Espera-se que as várias vidas desses gatos terminem por aqui.

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