Da Ásia para o Oscar

Mais dois filmes indicados ao Oscar: MINARI – EM BUSCA DA FELICIDADE (melhor filme e mais cinco indicações) e BETTER DAYS (filme internacional). Nenhum dos dois está em streaming brasileiro.

Um sonho coreamericano

Minari – Em Busca da Felicidade (Minari) é uma dramédia gentil para a família, com os apelos sentimentais característicos do melodrama “oriental”.  A história, inspirada na infância do diretor Lee Isaac Chung (americano de origem coreana), trata de uma família que emigrou da Coreia para os EUA e agora se muda da Califórnia para uma “casa com rodas” no campo do Arkansas.

Jacob Yi quer começar uma fazenda à moda americana, investindo o que ganhou nos últimos três anos. Enquanto isso, ele e a mulher trabalham numa granja separando pintos por sexo. No empenho de se adaptar à vida no interior, eles passam a frequentar a igreja local (fala-se que os coreanos da cidade foram para lá para fugir das igrejas coreanas). Ela, mulher da cidade, não gosta da mudança. Brigam por isso, as crianças tentam pacificá-los com gaivotas de papel escritas “don’t fight”.

Eles parecem ter cortado laços com a cultura coreana, mas a sogra de Jacob vem morar com eles, trazendo um pouco dessa tradição, simbolizada pela plantação de minari, uma erva popular na Coreia. A partir daí, o filme se concentra na relação entre a avó e o pequeno David, que a princípio a rejeita porque ela não parece “uma avó de verdade”. Não sabe cozinhar, fala palavrões e cheira à Coreia.

O filme tem três vertentes de expectativa: se a fazenda vai dar certo, se o casal vai se entender e se David vai resistir a sua insuficiência cardíaca. Os três eixos vão se encontrar no final, quando crescem as dificuldades com a fazenda, mas o filme puxa todas as cordas do melodramático.

A direção tem uma gramática simples, com muita música adocicada e boas atuações. A dramaturgia tipicamente americana e a presença de Brad Pitt como um dos produtores executivos deve ter ajudado esse filme apenas simpático a chegar onde chegou. Concorre aos Oscars de melhor filme, direção, roteiro original, ator (Steven Yeun), atriz coadjuvante (Yuh-Jung Youn) e música (Emile Mosseri).



Bullying e lágrimas

Após um prólogo que na verdade será o epílogo, Better Days (Shaonian de ni) começa de verdade com um suicídio. Uma aluna do pré-vestibular se atira de uma galeria da escola em decorrência de bullying. Sua colega Chen Nian (Dongyu Zhou), a única a manifestar alguma empatia, passa a ser também maltratada por colegas temerosos de que ela os denuncie à polícia.

Alegadamente inspirado em fatos, Better Days lida com dois problemas cruciais entre adolescentes chineses, quais sejam o bullying e as pressões pelo triunfo no currículo escolar.

Um evento fortuito de rua aproxima Chen Nian de Xiao Bei (Jackson Yee), garoto marginal que sofre nas mãos de gangues e bandidos maiores. Um laço se forma entre eles, ambos de famílias disfuncionais e vítimas de pontas distintas do sistema. Xiao Bei passa a protegê-la dos ataques até que a morte de outra menina vai colocá-los sob suspeita da polícia.

O filme de Derek Tsang foi indicado ao Oscar de filme internacional por um série de méritos inegáveis, como o tema pulsante e a ligação romântico-trágica entre os protagonistas, além de uma escrita cinematográfica pretensamente sofisticada. Se uso a palavra “pretensamente” é porque muitos dos recursos empregados soam como artifícios para dar aparência modernosa e incrementar o aspecto de thriller. Nem sempre se justificam as acelerações de montagem ou a alternância de planos narrativos numa trama cuja essência é bastante linear.

Chen Nian e Xiao Bei se impõem como personagens até o limite em que o excesso de lágrimas passa a falar por eles. Fica, então, a impressão de um filme algo manipulativo e formalmente estudado demais. Além de estendido para além do que seu argumento suscitava.

A denúncia do bullying, por sua vez, é reiterada e excessiva, a ponto de demonizar uma personagem e tornar inverossímil a ausência de qualquer reação da instituição às agressões bárbaras sofridas pelas vítimas. Remetendo a acontecimentos de 2011, o filme conclui com informações pacificadoras sobre as iniciativas recentes do governo chinês para combater a prática. Better Days procura se equilibrar entre a crítica do sistema, o alerta sociológico e um frágil anúncio de “melhores dias”.

Trailer legendado em inglês:

Um comentário sobre “Da Ásia para o Oscar

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