Mostra SP: “Listen” e “No Táxi do Jack”

Duas diretoras portuguesas, dois casos de imigrantes às voltas com um sistema social absurdo.

A surdez do sistema

Listen tem sido amiúde comparado com o cinema de Ken Loach, especialmente quando se pensa nos embates entre cidadãos vulneráveis e a cruel burocracia do serviço social britânico. Pensemos em Ladybird, Ladybird e Eu, Daniel Blake, por exemplo. Não é por menos. Formada na escola de cinema londrina, a diretora portuguesa Ana Rocha de Souza adota a mesma receita de realismo social de Loach, com um teor talvez um pouco mais essencialista.

A economia narrativa de Listen é tão restrita quanto as posses de Bela e Jota, imigrantes portugueses em Londres – ela faxineira, ele empregado de uma oficina que há tempos não lhe paga o salário. Vivem com dificuldade para sustentar três crianças, uma das quais é deficiente auditiva. Bela arrisca a segurança dos menores enquanto tenta se virar em pequenos furtos. O serviço social está fechando o cerco sobre eles, visando retirar os filhos de sua guarda. Não lhes falta amor, mas apenas dinheiro.

Independente do que julguemos quanto aos cuidados do pai e da mãe, Ana Rocha de Souza nos coloca diante de um sistema profundamente desumano em nome do humanismo. A forma traumática como as crianças são removidas, a intolerância para com as condições especiais da menina surda e as falsas acusações feitas contra os pais compõem um quadro simplesmente tirânico.

A luta dos pais, especialmente de Bela (Lúcia Moniz, excelente), ante a possibilidade de perder os filhos definitivamente para uma “adoção forçada” angustia e comove em igual medida. A cada momento de crise, a dinâmica do casal é desenhada com perspicácia, sempre com um mínimo de elementos e ótimo rendimento cênico.

Além de denunciar a insensibilidade do sistema, Listen revela também um esquema clandestino de apoio às famílias vitimadas, que, segundo consta, também se baseia em ocorrências reais. Isso vai agregar ingredientes de suspense que ampliam o apelo desse belo e duro filme.

>> Listen está programado na plataforma Mostra Play.



Joaquim e os carimbos

A diretora Susana Nobre é a primeira a aparecer em No Táxi do Jack. Ela está preparando a câmera para rodar a cena em que ela mesma entrevista Joaquim Calçada, o Jack do título. Entre 2007 e 2011, Susana trabalhou como agente de um serviço de “Novas Oportunidades” para trabalhadores portugueses, tendo usado essa experiência em alguns documentários. Foi lá que ela conheceu Joaquim, ex-imigrante que viveu em Nova York por cerca de 20 anos, onde foi o taxista Jack.

No Táxi do Jack é uma ficcionalização de sua vida real, somada a dados de outros trabalhadores. De volta a Portugal, prestes a se aposentar aos 63 anos, Joaquim está desempregado e, para ter direito ao seguro desemprego, precisa recolher cartas de empresas onde teria tentado uma vaga sem sucesso. Assim ele parte para “a corrida dos carimbos”, um procedimento quase surrealista de tão absurdo.

O mesmo ar de nonsense preside a narrativa do filme. Joaquim visita usinas, oficinas e canteiros de obras em busca dos tais carimbos. Mantém encontros com um querido amigo cego e cadeirante. Reflete, relembra e encena episódios de sua estada nos EUA, assim como de seus inúmeros empregos nos dois países.

A fronteira entre documentário e ficção é a todo momento borrada, seja nos relatos do personagem, seja na maneira de filmá-lo. Um flashback do táxi nova-iorquino, por exemplo, tem a sua confecção desmontada diante da câmera. Em outro trecho, Joaquim dramatiza a cobrança de uma dívida como num pastiche de Scorsese.

Uma comicidade tipicamente portuguesa, entre a paródia e a impassibilidade, dissimula um pouco o pano de fundo social da questão empregatícia. Ficamos com esse périplo um tanto insólito do trabalhador numa espécie de limbo profissional.

>> No Táxi do Jack está programado na plataforma Mostra Play.

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