Depois da tragédia, o ritual

MASS
Filme inédito comercialmente no Brasil, um dos meus favoritos vistos em 2022

Os primeiros 18 minutos de Mass nos preparam muito bem para o que virá. Na casa paroquial de uma igreja, três pessoas preparam minuciosamente a sala onde os personagens principais se reunirão. Verificam a melhor disposição da mesa e das cadeiras, dispõem alguns snacks e uma caixa de lenços de papel, examinam as condições sonoras do lugar. Há um cuidado extremo com cada detalhe, como se organizassem o cenário de uma missa.

Aos 18 minutos, finalmente os dois casais se encontram. O clima de tensão é tão denso que pode ser cortado à faca. Eles se olham constrangidos, não sabem por onde começar. A dificuldade para expressar os sentimentos é evidente nas hesitações, nas frases entrecortadas e nos olhares de desamparo. Assim mesmo, iniciam um ritual de confronto e, simultaneamente, de aproximação. Mostram fotos e objetos uns aos outros, referem-se aos respectivos filhos com olhos marejados e gestos de desconforto. As diferenças entre os casais e entre cada cônjuge vão sendo sutilmente pontuadas, como nas alusões a Obama e ao direito às armas.

Somente aos 35 minutos de filme é que mencionam pela primeira vez a razão de estarem ali. Um filho de cada casal foi morto em circunstâncias trágicas. Os pormenores da tragédia vão ser revelados paulatinamente, englobando diversos sintomas da doença juvenil contemporânea: bullying, depressão, vício em internet, impotência dos pais, transtorno explosivo gerando agressividade, violência e autodestruição.

Os acontecimentos, porém, vão permanecer sempre no campo da referência, uma vez que Mass se atém à forma como aquelas quatro pessoas encaram o ritual desse encontro depois de terem se engalfinhado juridicamente. O fato de estarem numa igreja é simbólico não só da tentativa de buscar uma pacificação, mas também de levar a questão para a esfera de uma certa liturgia. O mesmo se dá ao final da reunião, nas despedidas, quando o clímax emocional se ajusta a mais uma etapa do protocolo aceito por todos previamente.

Estreando na criação e direção, o ator Fran Kranz adotou uma escritura “teatral” espessa, inteiramente dependente da excelência dos atores. Martha Plimpton, Jason Isaacs, Ann Dowd e Reed Birney se esmeram no delineamento do turbilhão de emoções que perpassa aqueles corpos e fisionomias. São interpretações muito distintas entre si, mas igualmente permeadas pela manifestação de uma dor profunda, de culpas e desculpas, de sentimentos conflituosos oscilando em cada consciência. A impressão que tive foi a de presenciar pessoas em lugar de ver personagens.

A câmera levemente instável fornece um olhar “humano” sobre os rostos. A montagem colhe minuciosamente as reações que vão tecendo essa acareação excruciante entre dois núcleos igualmente perdedores. Resta o ritual de purgação para que as vidas possam seguir adiante.

Agradeço a Marco Fogel alguns toques na escrita deste texto.

3 comentários sobre “Depois da tragédia, o ritual

  1. Belíssima resenha, como se você fosse um Freud tropical da crítica cinematográfica, fazendo dos personagens do filme seus antigos pacientes/confidentes, revelando-os, um a um, como se os estivesse iluminando/filmando, numa vertiginosa sessão de terapia grupal/clerical, sabiamente regida pela sua reconhecida “expertise” existencial, conhecedora de todos os desvãos da geografia humana, no cinema e ao vivo, jamais divorciada da compreensão dos conflitos mais pungentes e dramáticos albergados pelo coração humano. Sua sedutora e rica “leitura” do filme é mais que um chamamento convocando a todos para assisti-lo. Show de bola, “Sigmund” Carlinhos.

  2. Pingback: Balanço do meu ano cinematográfico | carmattos

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