As emoções de Patricia Highsmith

por Paulo Lima

Logo nas primeiras cenas do documentário Amando Patricia Highsmith (Loving Highsmith), ouvimos a voz da escritora norte-americana dizer: “Boas histórias são feitas das emoções dos escritores.”

Como pôr essas emoções em imagens? Toda a subjetividade que costuma ser expressa nas palavras, que constituem na verdade a matéria prima dos escritores?

A diretora suíça Eva Vitija se vale em grande medida da própria Patricia Highsmith para alcançar seu objetivo, ao lançar mão dos seus diários e notas.

O que resulta é um mergulho na vida de uma escritora cuja obra foi catalogada como policial e de mistério, rótulos que ela mesma acaba por desmistificar.

Embora o documentário trate também do aspecto literário da personagem, cujo primeiro romance, “Pacto sinistro”, foi filmado por ninguém menos que Hitchcock, é sobre sua intimidade que Eva Vitija se debruça, ao esmiuçar o lesbianismo de Patricia Highsmith.

Ali, temos uma narrativa que vai do berço ao túmulo, cobrindo a infância da escritora no Texas, sua mudança para Nova York com a mãe aos 6 anos de idade – mãe que quase a abortou e com quem ela manteve uma relação distante -, até seu autoexílio na França, onde veio a morrer.

Às entradas do diário e às notas, ilustrados por raras imagens de arquivo da escritora, somam-se os testemunhos das amantes de Patricia, que adicionam nuances à compreensão de sua personalidade.

Desse retrato emerge uma mulher que, inicialmente premida pelo moralismo da juventude, vivida na América dos anos 1950, vai alçar um voo de autonomia e produzir romances que se tornarão best-sellers, como a série dedicada a Ripley, seu personagem mais famoso.

Da fase inicial de descoberta e autoafirmação como escritra nasce o romance “Carol”, cuja temática é um relacionamento afetivo entre duas mulheres, fruto de uma experiência de Patricia. (O livro virou filme homônimo, que pode ser visto na Netflix.)

Assinado com o pseudônimo Claire Morgan, o romance só teria sua autoria revelada décadas depois, já na maturidade da escritora, espelhando as barreiras morais que ela precisou enfrentar.

Dessa forma, seja para leitores e não leitores de Patricia Highsmith, o filme de Eva Vitija revela não só o universo de uma grande escritora, para quem a literatura era “um substituto de vida”, mas também de uma época.

Paulo Lima

>> Amando Patricia Highsmith pode ser assistido gratuitamente na plataforma do Sesc Digital, neste link.

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