O Nós e o Eu no CCBB

Com essas duas imagens de mulher me deparei no CCBB na última quarta-feira. À esquerda, a operária do metrô pintada por Alexandre Samokhvalov, que integra a magnífica exposição Virada Russa. À direita, Beth Goulart transfigurada na ucraniana (de nascimento) Clarice Lispector, na peça Simplesmente Eu.

SamokhvalovSimplesmenteEu

Para além das diferenças óbvias entre a carnuda proletária do nascente realismo socialista e a sofisticada escritora emoldurada pelo colar, são opostas as maneiras de olhar o mundo nesses dois eventos simultâneos do CCBB.

O quadro de Samokhvalov é uma das muitas expressões da Virada Russa que veio com a revolução de 1917. Percorrendo a exposição, vemos como a arte individual, “burguesa”, vai sendo substituída por uma arte utilitária, propagandística, voltada para a exaltação do espírito e das metas revolucionárias. Não há como negar que as obras de Rodchenko, Malevitch, Tatlin, assim como os posters, louças etc continuam belos e impactantes após o Outubro vermelho. Mas a perspectiva se volta inteiramente para o coletivo, a massa, o interesse da nação.

Nada mais distante do intimismo de Clarice Lispector, tão bem encarnado por Beth Goulart no seu monólogo. Clarice era a própria negação do coletivismo, com batom e laquê. Nela, a revolução se dava por dentro, como uma passeata de pensamentos em forma de espiral. Em lugar do Nós peremptório dos sovietes, o Eu tateante e tortuoso do indivíduo em sua apresentação mais irredutível. 

Tomei um susto quando Beth abriu a boca pela primeira vez na estreia da peça:

– Esc-rrevo…

Ela tem a ousadia de imitar o sotaque russo-nordestino-língua-presa de Clarice. E se impõe galhardamente, sugerindo a altivez e o humor da escritora quando se valia da palavra oral. Nos escritos, Beth assume a voz “normal” das personagens, com isso criando um trânsito interessante entre voz da criadora e voz da criação. A luz, os figurinos, a delicada trilha sonora, os vídeos, tudo colabora para um espetáculo requintado que nos faz chegar bem perto do coração selvagem de Clarice.

Entre o térreo e o primeiro andar, o CCBB está oferecendo uma “virada” de 180 graus.

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