A classe média vai ao paraíso

Cena de "Pacific"

Quando cheguei à 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes, sexta-feira passada, eram já os dois últimos dias do evento. Perdi alguns filmes muito comentados pelas ruas de pedras da cidade. Por exemplo, o vencedor da Mostra Aurora, Estrada para Ythaca, road-movie dirigido e interpretado por um grupo de jovens cearenses. Ou A Falta que nos Move, em que a diretora Christiane Jatahy levou para o cinema uma experiência de improvisação radical feita antes no teatro.

Mas de todos o filme mais discutido era o doc Um Lugar ao Sol (já comentado aqui no blog), por conta de seu retrato pouco lisonjeiro de algumas famílias de classe média alta e da ética duvidosa com que Gabriel Mascaro delas se aproximou. A produção contatou os entrevistados através de um folheto que apresentava Gabriel como um famoso diretor de publicidade internacional, interessado em conversar sobre a moradia em coberturas. No curso de algumas entrevistas, o tema acabava deslizando para os preconceitos e sentimentos de superioridade e segurança que alimentam o appartheid social nas grandes cidades brasileiras.

Nem tudo no filme é exaltação da diferença. Há também considerações sobre espaço, liberdade, conforto, verticalização urbana etc. Mas dificilmente o filme não será lembrado pelas cenas explícitas de arrogância social. A ausência de informações sobre o processo de abordagem das pessoas e dos assuntos provoca mal-estar em parte dos espectadores, entre os quais me incluo. Embora admire a força do filme e a originalidade do tema, sinto-me presenciando o efeito de uma armadilha. Outros, porém, veem o resultado com naturalidade. “Essas pessoas são cultas e informadas o suficiente para saberem o que estavam falando”, dizia Sylvie Debs, adida cultural da França em Belo Horizonte. Para o ensaísta e professor Cezar Migliorin, havia até certa justiça na conduta dos realizadores: “Às vezes a gente tem que escolher o inimigo mesmo, e, dependendo do inimigo, partir para a violência”.              

Embalado por essa polêmica, preparei o espírito para ver outro doc pernambucano presente na mostra. Em Pacific, o diretor Marcelo Pedroso (montador de Um Lugar ao Sol) reuniu imagens de 34 câmeras de turistas que fizeram cruzeiros de Recife a Fernando de Noronha em fins de 2008. Não há uma única imagem ou som produzido diretamente para o filme, além dos letreiros iniciais que explicam o processo. A equipe limitava-se a observar os grupos e famílias que se filmavam durante os seis dias de viagem. Ao final, pedia autorização para usar cópias do material num documentário. O filme monta cenas de quatro cruzeiros de maneira a criar a continuidade de uma única viagem.

O contexto é, certamente, de deslumbramento pequeno-burguês. Mas, ao contrário do filme de Mascaro, não se vê aqui uma intenção deliberada de expor condutas condenáveis. Até porque o material, por natureza ingênuo e lúdico, cria um distanciamento característico. É a consciência em férias. Uma sensação catártica perpassa as falas fascinadas pelas atrações do navio, as “bocas livres”, a expectativa da chegada ao tão sonhado “paraíso” de Noronha. As imagens balançadas, estouradas, erráticas são expressões mais de uma exaltação pessoal que de um desejo de mostrar ou informar. A celebração em miniDV.

Esse fluxo polifônico, que passa de um grupo a outro, tem seus momentos especiais. Um casal, por exemplo, filma-se fazendo poses elegantes, mas supostamente naturais, nas dependências do navio. Outro imita a cena do deck de Titanic (foto ao lado). Uma menina filma os pais na intimidade da cabine. E por aí afora. Quando chegamos à última cena, o reveillón de 2009, apesar do enjoo com as trepidações das imagens amadoras (boa referência às oscilações do navio), podemos mesmo sentir uma certa ternura por essa estética naif e ultra-clichê.

O efeito principal de Pacific (ou “Pacifíque”, como pronuncia uma voz nordestina) é de um deslocamento quase dadaista. Aquelas imagens e sons não foram feitas para serem vistas por nós, muito menos numa sala de cinema. Ali somos voyeurs de algo feito para consumo doméstico e privado. O risco do filme é limitar-se a uma oferta ao voyeurismo. Ao mesmo tempo, precisamos ter sempre em mente que aquelas cenas não foram feitas pela equipe do filme. Nos docs que usam materiais de arquivo entre outras coisas, esse código está sempre muito presente. Aqui não, pois tudo é só e radicalmente alheio.

Por muitas razões, Pacific nos coloca num estranho lugar como espectadores.

5 comentários sobre “A classe média vai ao paraíso

  1. Pingback: A vida em cena | Desdobramentos

  2. Oi, Carlos.

    Vi “um lugar ao sol” ontem e foi bom ter esquecido um pouco dessa crítica aqui pra ver o filme através das sensações que ele provoca.

    Posso dizer que gostei do filme, porque sem dúvida o tema é interessante por ser pouco abordado. Visualizamos um mosaico humano que mostra um pouco como pensa e vive a burguesia nesse nosso país de contrastes. Acho genial ter um depoimento do tipo: “é bom morar na cobertura, porque se alguém toca na porta eu não preciso ir abrir. Tenho mais privacidade” ou “ah, eu odeio barulho de panelas. Não é pela conversa dos empregados, é pelas panelas.”.

    Alguns tentam relevar o fato de morarem sobre tudo e todos e dão a sensação de uma certa culpa (relembre a personagem que fala sobre trabalho voluntário). Outros soltam toda sua arrogância, assumindo sem hipocrisia o fato de dinheiro, luxo e conforto fazerem parte de suas vidas sem provocar-lhes peso na consciência.

    Mas relendo sua crítica e relembrando esse detalhe de como o diretor e equipe abordaram os entrevistados, o filme acaba perdendo alguns pontos pra mim, ainda que no geral tenha me agradado por ser consequente no que quer mostrar.

    Beijos!

  3. Concordo com você em relação a “Um lugar ao sol”, Carlos.
    Apesar de ainda não ter visto o filme, acho bastante questionável o processo de abordagem dos retratados. Penso que as pessoas se deixarem entrevistar por acreditarem em uma informação falsa, não é legal.
    O diretor chegou a comentar se as pessoas já se viram no filme e como reagiram a isso?
    Beijos,
    Ariane

    • Pois é, Ariane. O montador me contou que uma das famílias (talvez a do depoimento mais comprometedor) teria visto o filme em casa e achado ótimo. Isso pode indicar que eu estou errado, mas não sei o que aquelas mesmas pessoas pensariam se vissem o filme numa sala coletiva e testemunhassem a reação da plateia a suas palavras.
      Beijos,
      Carlos

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