Samba, versão Original

O DVD pode não ter muito futuro, mas por um bom tempo ainda vai ter um presente bem forte. Por isso vale festejar a recente chegada da distribuidora carioca Original Vídeo. O catálogo deles é composto exclusivamente de filmes brasileiros, sejam de baixo, médio ou grande orçamento. João Batista de Andrade tem dois filmes lá: o clássico O Homem que Virou Suco e O País dos Tenentes. O único filme de Evaldo Mocarzel lançado em DVD, Do Luto à Luta, está no selo.

Outros docs de destaque são Vaidade, de Fabiano Maciel (vendedoras de cosméticos na Amazônia), Recife/Sevilha: João Cabral de Melo Neto, de Bebeto Abrantes, Memória para Uso Diário, de Beth Formaggini, L.A.P.A., de Cavi Borges e Emílio Domingos, Pretérito Perfeito, de Gustavo Pizzi, e Caroneiros, de Martina Rupp. Além disso, há outros longas de ficção e duas coletâneas de curtas, entre os quais o antológico Uakti – Oficina Instrumental.

No próximo sábado, a Original vai cair literalmente no samba, na quadra da Mangueira, durante o último ensaio da escola antes do carnaval. Ali terá lugar o lançamento do DVD de Samba, doc de Thereza Jessouroun aditivado com legendas em inglês e espanhol.

"Delegado" e uma cria na Mangueira de "Samba"

Abaixo, trechos de um texto que publiquei quando do surgimento desse filme, em 2001. Desde então, Samba foi exibido em vários canais brasileiros e em mais de 30 países da Europa e América Latina.         

_______________

Poucas instituições brasileiras já foram tão devassadas pelas câmeras quanto as escolas de samba. Curiosamente, o primeiro grande documentário sobre o assunto, Nossa Escola de Samba, de 1965, foi produzido e fotografado por um húngaro (Thomaz Farkas) e dirigido por um argentino (Manuel Horacio Giménez). Acompanhava a Unidos de Vila Isabel durante um ano, de um carnaval a outro. Hoje, o desafio dos documentaristas é encontrar novas formas de tratar um assunto incessantemente monitorado pelas televisões de dezembro a março.

O perfeito contraponto para essas visões macro do samba profissional e gerenciado está no documentário Samba, de Thereza Jessouroun, vencedor do Prêmio TV Cultura na última edição do Festival de Documentários É Tudo Verdade e selecionado pelo canal franco-alemão Arte para exibição nas televisões de sete países europeus em julho de 2002. O título simples diz tudo. Thereza quis mostrar o samba antes de ele virar megaespetáculo de TV. Filmou na Mangueira, berço de toda essa história. Escorada numa tradição que aprendeu com Eduardo Coutinho, ela rodou pelas biroscas, barracos, terraços domésticos e rodas-de-samba do morro, ouvindo velhos mestres e passistas célebres, e filmando a garotada que aprende a sambar tão logo cessa de engatinhar. O samba, para essa gente, passa de geração para geração, educa, une e separa casais, cura, abafa mágoas, liga-se ao universo místico das pessoas. Algumas das histórias ouvidas por Thereza transcendem a mera documentação do samba e viram depoimentos emocionantes sobre a vida daquelas pessoas.

Enquanto a grande maioria dos documentários sobre samba o abordam pelo veio da música, dos compositores ou das escolas, Samba ocupa-se da dança em si, da maneira como os mangueirenses conduzem os pés e o corpo e, por extensão, de como isso influencia o que vai por suas cabeças. “Delegado”, o lépido e lendário mestre-sala de 77 anos, elegante como um Fred Astaire esculpido em ébano, mostra vigor tanto nos pés como na imaginação ao rememorar sua vida galante. A “baiana” Celina conta como o samba a ajudou a superar uma grande desilusão afetiva.

Preciosas imagens de arquivo, além de trechos do clássico de Manuel Giménez, convivem com cenas atuais, gravadas pela câmera-na-mão do célebre Dib Lutfi ou de cinegrafistas mais jovens. Daí surge uma perspectiva histórica. Boa parte dos entrevistados se mostra nostálgica com a diluição do velho samba de morro e sua transformação em item empresarial. “O samba agora é chuchu com abóbora”, compara a veneranda passista Ivete. 

Como tantos filmes, Samba também termina no esplendor da pista do Sambódromo. Mas, nesse caso, o carnaval não é a apoteose de um processo. O espetáculo da avenida, rigidamente coreografado e submetido a todo tipo de convenções, é apenas um momento de exceção na vida dos sambistas. Thereza Jessouroun enfoca o samba do resto do ano, quando ele significa improvisação, jogo de cintura e auto-ajuda para uma imensa comunidade carioca. “O samba é pé, cadeira e cadência”, define Nanana da Mangueira. O resto é chuchu com abóbora.

Um comentário sobre “Samba, versão Original

  1. parabéns tudo agora e boi com abóbora, teve ate um artista desses pagodinhos modernos que teve a pitulancia em afirmar que modificou o samba, o cara não tem raiz em escola de samba nenhuma, parabens nanan da mangueira, é isso mas o samba de verdade não vai se acabar, não toca no radio, mas agente canta no morro, nas favelas, nos becos e agente vai levando.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s