Cinderela sertaneja

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Talvez você se recorde de Marlene França como a morena taluda e bonita, uma espécie de Sophia Loren brasileira, que atraiu olhares e tesões em filmes de cangaço e comédias eróticas das décadas de 1960 e 70. Pode ser que você se lembre dela como atriz  dramática em filmes de Roberto Santos (Nasce uma Mulher, Quincas Borba) nos anos 80. Quem sabe você a tem na memória como diretora dos documentários político-sociais Frei Tito, Mulheres da Terra, Meninos de Rua e O Vale das Mulheres. E se você passava os olhos pelas velhas colunas sociais, pode saber que Marlene França é também a mulher do herdeiro de uma das famílias mais ricas do Brasil, os Matarazzo.

Como essas mulheres todas convivem numa mesma mulher é o que pretende contar a biografia Marlene França – Do Sertão da Bahia ao Clã Matarazzo, escrita pela jornalista Maria do Rosário Caetano para a Coleção Aplauso. Como na maioria dos livros da coleção, o texto parte de um depoimento de Marlene, colhido e editado por Rosário.

Elas perderam uma boa chance de começar com a frase “Era uma vez”. Sim, porque a história de Marlene, tal como contada aqui, é uma variante dos contos de fada. Com participação intensa do acaso. Marlene foi descoberta por Ary Fernandes quando vendia cocada num mercado de Feira de Santana, interior da Bahia. Ary procurava figurantes para o curta Ana, a ser dirigido por Alex Viany como parte do longa internacional A Rosa dos Ventos, supervisionado por Joris Ivens e produzido pelo Partido Comunista da Alemanha Oriental. Marlene e toda sua pobre família acabou contratada para fazer figuração. A menina de 12 anos, que já sonhava em ser atriz e “sair nas capas das revistas”, tinha ali o primeiro de uma série de encontros quase mágicos.

Três anos mais tarde, já emigrada para São Paulo, eis que Marlene topa casualmente com Alex Viany numa rua do centro. Alex a apresenta a Ruy Santos, que a “encaixa” como assistente de montagem e continuísta. Novo encontro numa rua do Brás a levou para os estúdios fotográficos, onde posaria para anúncios e até capa de disco de bolero. Lima Barreto (de O Cangaceiro) a queria para o papel de Inocência, roteiro que só seria filmado muito tempo depois por Walter Lima Jr. com Fernanda Torres.

Depois de um casamento e vários namoros na área artística (Lima Barreto, Ignacio de Loyola Brandão, Riva Faria, Gianni Amico, Renzo Rossellini), Marlene foi finalmente fisgada por seu príncipe encantado enquanto ensaiava um show em boate paulista. Angelo Andrea Matarazzo Ipolito a transformou numa “Cinderela do século XX”, que passou a viver entre Porsches, Guarujá e temporadas suntuosas na Europa. Ao mesmo tempo, esbaldava-se em farras e filmagens na Boca do Lixo, assim como mantinha amizades estreitas com a esquerda brasileira e latino-americana.

Maria do Rosário situa os pontos decisivos dessa trajetória fascinante, mas é pena que não aprofunde uma investigação sobre o seu sentido. Num relato provavelmente feito às pressas, ela parece ceder à memória preguiçosa de Marlene com relação a suas atuações. A atriz fornece poucos insights particulares sobre os quase 50 trabalhos em cinema e televisão, ou mesmo sobre os docs que dirigiu. Em contrapartida, há um excesso de sinopses e nomes de elencos e equipes a atravancar a fluência do texto.

Fica, porém, a curiosidade aguçada sobre essa mulher certamente extraordinária, que consegue reunir em torno de si vários mundos. Contraditórios mas, para a sertaneja-cinderela, complementares.

O livro pode ser folheado e lido na íntegra aqui.

3 comentários sobre “Cinderela sertaneja

  1. Pingback: MARLENE FRANÇA IPPOLITO | R I B E I R O - UAUÁ-BA

  2. A respeito do livro daa vida de Mrlene Franca

    E uma pena que, aparentememte, nao se fala muito de MIlton Amaral que foi quem a ajudou no seu caminha da fama. Nao fosse for ele que a trouxe paraa a nossa casa onde foi acolhida por minha Tia com quem Milton morava , e eu tambem, no bairro a Liberdade.
    Nao fosse pro ele que conversou com o Pai dela e assegurou que ela iria estar bem conosco tudo seria mais dificil.
    Ela morava na epoca no Jardim Japao o que era entao no fim do mundo.
    Eu a lembro como uma garota divetida mais jovens do que os seus anos. Nos brincavamos de subir a rampa que tinhamos no quintal.
    Do quintal na parte mais alta que dava ja para a sua de cima, pulava se o muro e roubavamos goiaba do quintal abandonado do vizinho. De la tambem olhavamos dentro da casa dos vizinhos e o qque viamos era ja uma outra historia! Riamos muito juntas como adolecentes fazem
    A ultima lembraca que tenho dele e de quando minha prima Francisca encontrou o MIltinho e nos fomos la busca-lo. Na mesma noite estava la o Andrezinho que estava la para levar Marlene. Que drama!!!
    Dessculpe os erros, acontece quendo se esta fora da terrinha por tantos anos!!
    Janie Molloy – Londres – Reinos Unidos

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