Quebrando Fernando

Fernando Henrique Cardoso está fazendo hoje 80 anos. Parabéns, FHC. Como todo ex-estadista digno, ele merece as devidas homenagens. Mas o que está acontecendo vai muito além disso. Fernando Henrique torna-se octagenário a bordo de um lifting, se não facial, pelo menos político.

Várias circunstâncias contribuíram para que FHC restasse como única reserva de liderança nacional para o PSDB, melhor dizendo, para quase todos os que se opõem aos governos Lula-Dilma. Com o fracasso rotundo de Serra (não tanto em termos eleitorais, mas de imagem pública), as dificuldades para fazer de Alckmin ou Aécio nomes de apelo fora de suas regiões e a falta de outros candidatos a isso, ficou para os ombros do Príncipe da Sociologia a responsabilidade de sustentar um lastro de identidade para a oposição. FHC é como um jogador que não participa do jogo, mas é colocado bem à vista na beira do gramado para inspirar quem está dentro do campo.

Um certo sistema da oposição se organizou em torno dele. Participam fundações, banqueiros, colunistas de jornal e gente da área do entretenimento. Merval Pereira o situou ontem na “vanguarda dos movimentos sociais” por defender a descriminalização da maconha e a aproximação da oposição à classe média conectada na internet. O documentário Quebrando o Tabu, produzido por admiradores do “presidente” e dirigido por um jovem cineasta, tem tudo para ser visto como parte dessa empreitada.

Foi muito feliz a coincidência do lançamento do filme com a decisão do STF de resguardar o direito dos que defendem a legalização das drogas. Como um dos argumentistas e estrela principal, Fernando Henrique faz algo análogo a Al Gore com sua pauta ecológica e o sermão fílmico Uma Verdade Inconveniente (reparem que até o título Quebrando o Tabu busca um efeito semelhante). É justo e positivo que ex-presidentes cavem um lugar de afirmação na grande cena política e sigam contribuindo para o bem da Humanidade. Mas a analogia entre esses dois casos só faz evidenciar a imensa distância que os separa.

Quebrando o Tabu simplesmente não consegue fazer de Fernando Henrique um real protagonista. Na maior parte do tempo, quando não está verbalizando clichês sintéticos sobre o fracasso da guerra às drogas (a única afirmação sólida do filme), ele está apenas ouvindo e concordando com seus interlocutores, como um âncora inerte. Como personagem de doc, é canastrão até ao ouvir de cenho franzido. Ou a edição não soube aproveitar seus melhores momentos nas conversas, ou não houve mesmo melhores momentos.

Com poucas exceções, o filme não procura pessoas pelo que elas conhecem sobre o tema, mas pelo “valor” que podem somar ao filme ou associar ao personagem central. FHC é mostrado sempre em paralelo a presidentes e ex-presidentes, celebridades sem muito o que dizer sobre o assunto (como Paulo Coelho e o ator Gael García Bernal) e jovens estudantes ou militantes junto aos quais o sociólogo se contagiaria de juventude e militância. Algumas cenas provocam riso involuntário, como a de FHC subindo o morro para investigar in loco a questão do tráfico ou denunciando quem fala sobre drogas sem “vivência direta” do assunto.

O roteiro é muito ruim, dispersivo e cheio de ênfases erradas. A pauta (sim, porque esse é um filme com uma pauta) resulta confusa entre descriminalização, legalização e liberação das drogas em geral, ou só da maconha, ou não é bem isso… Uma argumentação cheia de dedos, que talvez não faça jus sequer ao que Fernando Henrique de fato esteja representando nessa discussão.

A volta de FHC ao proscênio da atividade política pode até se concretizar, mas não creio que esse filme ajude muito no projeto.

3 comentários sobre “Quebrando Fernando

  1. Carlos, encontrei esse review pelo imdb e após ler o seu texto gostaria de discordar de vc em alguns pontos..

    Primeiramente, quem não sabe fazer um review “cru”, sem preconceitos ou tendências, não devia se dar o trabalho de submeter o link a um site como o imdb. No primeiro parágrafo já deu pra perceber os seus sentimentos quanto ao ex-presidente e suas intenções.

    O objetivo do documentário não foi ouvir o que o ex-presidente tinha a falar sobre o assunto, e sim reunir opiniões diversas sobre o assunto de pessoas com real conhecimento e experiência no assunto..

    Realmente algumas partes do documentário ficaram nonsense, como a da favela e as do afroreggae..

    Eu acredito que o documentário pecou em não explorar mais o tema no contexto brasileiro, mas visto que a missão principal do documentário era discutir e mostrar alternativas, acho que ele cumpriu bem o seu papel, visto que é um tema muito delicado..

    Fernando Trevas,
    Comparar o FHC com o Al Gore não é uma comparação justa, para o Al Gore..

    • Caro Luiz Felipe,
      Para começo de conversa, não sei o que poderia ser “um review ‘cru'”, já que todo texto crítico é, por definição, crítico. Ou seja, eivado da opinião e das considerações particulares do crítico. Longe foi o tempo em que se imaginava uma crítica “imparcial” e “neutra”, ou como você prefere, “crua”. Mesmo que isso fosse algum dia possível, não seria aplicável a um filme como “Quebrando o Tabu”, que se propunha a ser claramente um veículo político para seu personagem principal.
      De resto, se o filme cumpriu ou não aquilo a que se propunha, cada um pode avaliar individualmente. Minha intenção, como crítico, foi apontar o que, a meu ver, o filme pretendia. E, pela minha perspectiva, foi um fracasso.
      No mais, obrigado pelo feedback e por expressar sua opinião no meu blog. Esta é a essência desse tipo de publicação.
      Um abraço do Carlos

  2. Carlinhos,

    Não vi o filme, mas a tomar pelo trabalho anterior do diretor, imagino o que resultou dessa “Verdade Incoveniente” do príncipe.
    Podemos concluir que ser um ex-presidente com algo a acrescentar exigiria dele mais talento,

    Abraços,
    Fernando

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