Dino Cazzola: a diretora comenta

Pela importância do assunto, trago à frente o comentário enviado por Andrea Prates, uma das diretoras de Dino Cazzola – Uma Filmografia de Brasília, à resenha que publiquei aqui  

Prezado Carlos Alberto,

Conforme a tua solicitação, trago as minhas considerações à tua resenha para discussão.
Acho importante considerar que Dino Cazzola foi um cinegrafista e produtor de Brasília, que tinha a produção de imagens como ofício. Desta forma, e considerando que o período em que trabalhou foi, essencialmente, o da ditadura militar, parece-me bastante natural que exista, em seu acervo, uma enorme quantidade do que você chama “cenas oficiais”; o Paulo Emílio, de “rituais do poder”; e eu, meramente, “chapa branca”!
Não há viés ideológico algum na trajetória do Dino Cazzola, assim como não há qualquer pretensão de valorar o acervo do cinegrafista, por sua relevância artística. O seu mérito foi ter reunido imagens… comerciais, institucionais, pessoais… que têm valor como memória! Como registros históricos de um tempo passado, da evolução urbanística de uma cidade, etc.
Todavia, essas imagens não são um fim em si mesmas! Os seus propósitos, neste caso, são o que menos importa. Note-se que, em sua esmagadora maioria, eram imagens mudas, cuja voz coube a nós promover. E, obviamente, demos a voz que quisemos dar. Não há ilusão de fidelidade de propósitos! A manipulação é rasgada, e isto grita nas cenas que nos remetem à ditadura. Nós usamos as imagens dos vencedores para contar a história dos vencidos. Está claro!
Quanto aos “registros de episódios desagradáveis para a ditadura”, se foram produzidos, ou mesmo reunidos pelo Dino, não sabemos. De fato, vamos ficar no “dizem” que foram feitos, e “dizem” que foram destruídos. Mas, nem por isto, a resistência ao Regime deixou de acontecer, e nem por isto haveríamos de sublimar esta importante parte da história de Brasília. Daí a razão de termos chamado um artista plástico, ex-estudante da UNB, a fim de nos fornecer elementos passíveis de melhor compreensão àquele momento.
Falando nisto, e se me permite ir além, acho um equívoco o entendimento de que a ditadura e todas as suas mazelas, não precisem mais ser sublinhadas! Isto é parte da história recente do País, e ainda hoje permanece na ordem do dia, a exemplo das discussões que vimos pulular aqui e ali, sobre a Comissão da Verdade, as comemorações ao golpe pretendidas e alardeadas pelos militares… e por aí vamos.
Enfim! É isto! Obrigada pela tua atenção e pela oportunidade de defendermos as nossas posturas com relação ao documentário.

Grande abraço,
Andrea Prates

2 comentários sobre “Dino Cazzola: a diretora comenta

  1. Oi, Andrea, belo filme e uma ótima oportunidade de resgate da memória nacional. Obrigada por compartilhar conosco esses registros históricos.
    Parabéns!

  2. Muito bem dito, Andrea! Aliás gostaria de parabenizá-la pelo filme e pelo trabalho hercúleo que vcs tiveram de analisar todo aquele material editar brilhantemente o que foi possível para fazer este trabalho! Parabéns aos diretores e toda a equipe. A edição, a montagem e a música tb estão lindíssimas!

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