Tags

, ,

É Tudo Verdade – Nas sequências iniciais de Dino Cazzola – Uma Filmografia de Brasília, vemos latas serem abertas para revelarem filmes em franca decomposição, alguns mesmo virando pasta de celuloide. Ouve-se a voz do técnico Francisco Sérgio Moreira repetindo: “lixo, lixo, lixo…”. Era o estado em que se encontrava a maior parte do acervo do produtor cinematográfico Dino Cazzola, sem contar o que já fora destruído pela censura e a incúria das redes de TV. Cazzola filmou Brasília de sua gestação até meados dos anos 1970. O filme de Andrea Prates e Cleisson Vidal (autores do essencial Missionários, de 2005) procura dar uma ideia e um sentido ao material restante, que não chega a 30% do que teria sido filmado.

O filme se organiza de maneira cronológica, como a recontar a história de Brasília através das cenas rodadas por Cazzola. Trata-se de uma opção problemática, já que o material não permite cobrir o período a não ser por saltos largos e sem muita conexão. Além disso, enquanto na maior parte do tempo as cenas de documentários e reportagens para a TV assumem corretamente o protagonismo como enunciadoras dos relatos, há trechos em que o artista plástico Xico Chaves parece ocupar o papel de narrador, fazendo com que as imagens se submetam a suas memórias, ligadas principalmente à resistência ao regime militar. Nesse desvio de prioridades, o filme corre o risco de se descaracterizar.

Da mesma forma, são discutíveis os recursos de edição para sublinhar o que não necessita mais ser sublinhado, como o golpe de 1964 e a decretação do AI-5. O epidódio da invasão da UnB é ilustrado com matérias de jornais e fotografias, o que reforça a impressão de que o acervo de Dino Cazzola se compunha basicamente de cenas oficiais – ou, como chamaria Paulo Emilio Salles Gomes – rituais do poder. Os registros de episódios desagradáveis para a ditadura, conta-se, teriam sido censurados e inutilizados pela TV Brasília.

O aspecto às vezes propagandístico da produção de Dino Cazzola talvez diga muito sobre seu lugar de imigrante agradecido ao país que o acolheu desde que ele se associou aos pracinhas na Itália durante a II Guerra. Sua história pessoal, se não fosse apenas ventilada, poderia jogar mais luz sobre a natureza dos seus filmes. O resgate está feito, mas ainda carece examinar com maior profundidade aquelas imagens.

About these ads