Os goianos premiados

Três filmes concentraram a maior parte dos prêmios da Mostra ABD-Goiás no FICA, que termina hoje (domingo) em Goiás Velho. Visões da Floresta, de Vicente Rios, ganhou melhor documentário, fotografia e montagem. O curta Gertrudes e seu Homem, de Adriana Rodrigues, levou os de melhor ficção, melhor atriz (Juliana Albuquerque) e dividiu melhor direção com É uma Vez, de Ludielma Laurentino, que por sua vez foi escolhido como melhor animação e melhor roteiro. A premiação foi divulgada ontem à noite. Paralelo 10, de Silvio Da-Rin, foi o grande vencedor da mostra principal.

Adrian e Vicente no FICA de 2008

Visões da Floresta é um tributo de Vicente Rios ao inglês Adrian Cowell, seu mentor e companheiro de mais de 30 anos de filmagens pela Amazônia. Cowell morreu em outubro do ano passado, aos 77 anos. Em 26 minutos, Vicente reedita momentos culminantes da trajetória dos dois, dos Villas Boas a Chico Mendes, passando pela chegada do acervo de sete toneladas à PUC de Goiás, para onde foi doado há dois anos. O filme é narrado pelo próprio Vicente e inclui pequenos depoimentos que ele colheu de Cowell sobre seu trabalho e sobre os índios brasileiros. A qualidade técnica e narrativa do trabalho da dupla contrastava dramaticamente com a precariedade e a ingenuidade dos demais documentários da mostra. Entre esses destacou-se Dona Romana e o Grande Eixo da Terra, de Paulo Resende, menos pelo tratamento convencional que pela personagem fantástica. Dona Romana faz esculturas em pedra a partir de “visões” que afirma ter. Além disso, estoca mantimentos, remédios e apetrechos com vistas a salvar a população (pelo menos do Tocantins) de um apocalipse que mais dia, menos dia vai chegar. Ela tem algo de Bispo do Rosário e de Estamira, mas dentro da postura absolutamente normal de uma senhora do interior. À falta de candidato para o prêmio de melhor ator, criamos uma categoria especial para Dona Romana: melhor personagem de documentário.

Tive como companheiros de júri a roteirista e diretora Gabriela Almeida, de São Paulo, e o animador Sávio Leite, que organiza em Minas o festival de animação Múmia. Não foi fácil encontrar premiáveis num conjunto de filmes muito irregulares, quase todos com problemas sérios de concepção e direção. Tanto nos curtas de ficção como nos docs, há uma tendência passadista e um grande apego a formas tradicionais de narrativa. A predileção por fusões torna os filmes pastosos, e a música frequentemente tenta em vão suprir a falta de uma dramaturgia mais eficaz. Gertrudes e seu Homem, embora não fuja muito a esse modelo, pelo menos apresentava uma decupagem dinâmica, um bom sentido de espaço e uma trama curiosa. Uma costureira se instala numa cidade do interior e desperta atenções em torno de seu belo e fogoso marido, cuja real constituição física será uma surpresa bem preparada.

É uma Vez é um mix de live action e animação que trata de tema delicado: suicídio infantil. Uma menina, cansada de ver os pais brigarem, se atira de uma janela e tem uma breve (e feliz) vida pós-morte em forma de desenho. O prêmio de melhor filme experimental ficou com Rua 57 nº 60 Centro, de Michael Valim, interessante registro de uma performance sobre os ecos do acidente com o Césio 137, que abalou Goiânia em 1987.

Os outros prêmios ficaram com a animação Destimação, de Ricardo de Podestá (melhor trilha sonora), o longa doc Cartas do Kuluene, que já comentei aqui, (melhor som) e Caminho de Pedras, de Lázaro Ribeiro (melhor direção de arte), este uma dramatização de episódios da vida da escritora e doceira Cora Coralina, filmada em sua própria casa, em Goiás Velho.

Concluída minha missão nessa bela cidade, resta agradecer à turma simpática da ABD-GO, liderada por Carlos Cypriano e Itamar Borges, e trazer saudades de quitutes como o empadão goiano, o arroz Maria isabel (um delicioso risoto de carne de sol picadinha) e os bolinhos de arroz da Dona Inês do mercado.  Viajar, de alguma forma, é colecionar ausências.

5 comentários sobre “Os goianos premiados

  1. Vou considerar isso como uma crítica construtiva, “pelo bem do cinema Goiano…” – Como consolo, pelo menos meu filme pastoso, ingênuo e precário teve a capacidade de sensibilizar alguém ao ponto de criar uma categoria especial para premiar a dona Romana, figura fantástica que eu prezo muito, especialmente pela dignidade com que ela cumpre a sua missão, que pra ela não é arte, mas uma tarefa árdua.
    Me sinto honrado em poder proporcionar a ela esse premio.
    E parabéns pelo texto, voce escreve muito bem, apesar de que, para mim, seja mais um “dedo na ferida”…

    • Olá, Paulo, agradeço a mensagem simpática e compreensiva. Não tome meu texto como “dedo na ferida”, mas como contribuição desinteressada de um crítico interessado. Dona Romana realmente nos falou de perto e, logicamente, isso é mérito seu por descobri-la e trazê-la até nós. Um grande abraço e parabéns.

      • Desculpe, mas quando disse um dedo na ferida não foi por ressentimento por sua opinião, mas uma alusão ao refrão freneticamente entoado por uma torcida organizada durante a cerimonia de premiação. – natural por se tratar de estudantes, mas na hora fiquei imaginando se o José Wilker estava entendendo alguma coisa do que se passava ali naquele momento…
        O seu texto foi claro e nos fez entender que havia pelo menos um filme excelente na mostra, e que portanto, teria o direito de participar mostra internacional, de cunho ambiental e quem sabe, ganhar lá também um ou mais premios

        abraço, e obrigado

  2. Carlinhos, seja bem vindo, estou sempre por lá, minha mulher, a Noemi, é goiana, e o curador do Fica, Lisandro Nogueira, velho amigo de tempos cineclubistas.

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