Sítio do Gil polichinelo

Com bem menos estardalhaço do que os de Caetano Veloso, os 70 anos de Gilberto Gil também estão sendo comemorados. A face mais visível até agora da celebração, pelo menos no Rio, é a exposição Gil 70, que está no Centro Cultural Correios até 28 de outubro.

As várias salas ocupadas no segundo andar do prédio procuram fazer jus à interdisciplinaridade da obra de Gil e à multiplicidade de suportes que ela sugere. Talvez falte alguma ênfase na face política, mas a interação de música, poesia, pensamento e cultura digital está muito bem representada.

Além dos tradicionais painéis biográficos e monitores com trechos de vídeos (o show da ONU, com diplomatas sambando, é imperdível), a exposição criada por André Vallias e Fred Coelho abre bom espaço para obras de arte visual e instalações de vídeo, luz e som. Tem videopoema de Augusto de Campos, fotopoema de Arnaldo Antunes e até instalação de Adriana Calcanhotto, entre muitos outros.

Uma videoinstalação em particular me chamou a atenção por usar material documental, no caso filmes domésticos da família de Monteiro Lobato e alguns desenhos do próprio. Porviroscópio Remix Redux é uma apropriação desses materiais por Carlos Adriano, um expert na arte de esquadrinhar os sentidos de velhos filmes quase desconhecidos (vide Remanescências, Santos Dumont: Pré-Cineasta?). Rodando em looping irregular por três telas, as imagens são repaginadas, sofrem fibrilações e outros efeitos que realçam o aspecto lúdico sugerido pela trilha sonora, a canção Sítio do Pica-pau Amarelo na voz de Gil. Uma travessura audiovisual a partir de uma pesquisa séria.

Enviei a Carlos Adriano algumas perguntas sobre esse trabalho. Eis suas respostas:

– Por que o título Porviroscópio?

C.A. – No romance futurista O Choque (1926), Lobato inventou um dispositivo para projetar imagens, aparelho captador de tempo, em que passado e futuro eram vistos numa tela de cristal chamada porviroscópio.

– Por que Remix Redux?

C.A. – O original de 2004-2006 era um vídeo monocanal de cerca de 32 minutos, feito com apoio de uma Bolsa Vitae de Artes (a última edição da Vitae). Já naquela época (o produtor) Bernardo Vorobow e eu desenhamos um projeto de “cinema expandido”, por conta do achado da ideia de “porviroscópio”. Mas nunca foi realizado como instalação. O vídeo só foi exibido numa sala do Videobrasil em 2007.

– Em que consistiu, então, essa nova versão?

C.A. – O remix redux atual foi feito em função da música de Gil, que não estava na edição original. Agora são três séries de vídeos, cada vídeo com cerca de sete minutos. Na prática, são sete vídeos diferentes: um é o material orginal do Lobato na íntegra e sem edição ou manipulação (apenas “restaurei” i.e. “ralentei” o trecho da animação para que os desenhos – e o único plano do próprio Lobato, um auto-retrato em plongée – fossem visíveis na tela); os outros seis são minha apropriação. Cada uma das três séries de vídeo é acompanhada de duas versões da canção pelo Gil.

– Todo o material é da família do Monteiro Lobato?

C.A. – Sim, os registros de filmes domésticos e o filme pintado na película. Foi o Valêncio Xavier (pesquisador paranaense, já falecido) quem me passou o toque do material, que está em 16 mm e tem duração de 5 minutos 56 segundos de cenas familiares e 35 segundos de desenho animado. As cenas de família se passam no quintal da casa de Lobato, no bairro da Aclimação (em São Paulo), na casa de sua cunhada (no mesmo bairro) e na casa de Nicacia (tia de Pureza, mulher do escritor), em Taubaté. O filme foi feito após a Revolução de 32, pois em duas cenas aparecem pessoas com capacete e máscara contra gás distribuídos aos soldados paulistas. E data de antes de 1938, ano da morte de Guilherme, filho de Lobato, aquele que, de máscara contra gás, avança em direção à câmera. No filme aparecem Pureza, suas filhas Martha e Ruth, a neta Joyce e outros parentes e amigos. Em Taubaté, Lobato filmou panorâmica pela cidade, ruas com pessoas, etc. E cenas familiares no quintal da casa. Em meio aos desenhos, há uma curiosa imagem do escritor, de chapéu, cobrindo o rosto (trata-se mesmo de Lobato, pois está com a mesma gravata que usa em foto da época), visto de cima (plongée), tendo ao lado uma câmera (fotográfica?).

– A cada vez que o filme se repete, a distribuição das telas se altera e parece haver variações na apresentação do material.

C.A. – Há variações em cada uma das três séries, em função das versões das músicas do Sítio. Assim é possível dizer que: são três séries, cada uma com três vídeos em três telas; destes nove vídeos, três são idênticos (em termos de imagem) pois é o filme original do Lobato; os outros vídeos variam em função da música e da edição de imagem. Não sei se seria possível dizer que o Porviroscópio (32 min) está inteiro na instalação de 21 minutos, mas boa parte está ali. Sempre uma das telas exibe o material bruto e na íntegra, enquanto nas telas ao redor está o trabalho de reapropriação.

– Por que a ênfase na frase “If you do not like go to hell”?

C.A. – Foi o próprio Monteiro Lobato quem a escreveu, terminado o filme. Parece-me um pouco enigmática, mas também afinada ao espírito combativo do próprio Lobato. Resolvi adotar como minimanifesto (ou programa) crítico-criativo, como já havia feito com a desconhecida marchinha A voz do povo (Malfitano e Frasão) que encontrei para o Um Caffé com o Miécio, gravada nos anos 40 por Orlando Silva e regravada especialmente para o meu filme por Caetano Veloso. Parece que meus achados não são apenas da raridade do artefato, de algo perdido ou esquecido da cultura cinematográfica brasileira, mas sempre há uma “aura”, um “índice-ícone” que repercute simbolicamente… Lobato foi um osso duro de roer na média e mediana e medíocre geleia geral da cultura brasileira. O episódio de “Paranoia ou mistificação” mistificou muito (e negativamente) o caráter moderno e avançado de ML (coisa da falsa história do modernismo triunfante). Ele também se envolveu em muitas frentes de atuação. O subtítulo do vídeo de 2006 dá uma dica do toque filme-ensaio e da provocação: “Cine ideias de Jeca Tatu ou Um Jeca na AvantGarde”.

(Conheça os Faróis de Carlos Adriano)

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