A morte como bem de consumo

Chega hoje ao final a Mostra Nelson Rodrigues do Canal Brasil. Leia a seguir uma versão mais completa do texto que fiz para Leona Cavalli apresentar a sessão de A Falecida, estreia de Fernanda Montenegro no cinema. O filme passa à 0h10 de terça para quarta. 

Esta é não só uma das melhores adaptações da obra de Nelson Rodrigues para o cinema, mas também uma das mais diferenciadas. A Falecida não pesava toneladas como algumas transposições anteriores, nem queria ser puro divertimento como outras que viriam depois. Realizado em 1964 e lançado em 65, era uma aproximação possível entre o universo de Nelson Rodrigues e o campo de interesse social do Cinema Novo.

A ideia inicial de Joffre Rodrigues, filho de Nelson e produtor do filme, era que Glauber Rocha dirigisse uma versão cinematográfica de Senhora dos Afogados. Mas Glauber não topou encarar o misticismo exacerbado da peça – sem falar que Nelson Rodrigues era visto como sinônimo de moralismo reacionário. Surgiram então os nomes do diretor Leon Hirszman e do roteirista Eduardo Coutinho. Leon tinha apenas 27 anos e dois curtas no currículo. Coutinho tinha interrompido o projeto de Cabra Marcado para Morrer. Eles propuseram filmar não Senhora dos Afogados, mas A Falecida, peça que estreou em 1953 levando pela primeira vez o tema do futebol para o palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

A gente vê, logo no início do filme, um letreiro dizendo “No tempo em que Pelé era Ademir”. É uma referência ao atacante Ademir Menezes, que deu muitas vitórias ao Vasco da Gama no início dos anos 50 (mais nos anos 40, corrige-me Jairo Severiano). O futebol atravessa o filme de ponta a ponta como um comentário sobre o comportamento do homem carioca. O aspecto social se confunde magistralmente com as obsessões individuais nessa história que Nelson Rodrigues chamava de “tragédia carioca”.

Fernanda Montenegro fez sua estreia no cinema no papel de Zulmira, moradora do subúrbio de Sampaio, hipocondríaca, obcecada pelo desejo de descontar na morte a condição humilde de sua vida. Ela quer porque quer um enterro de luxo, com penacho e tudo, para que os vizinhos, e principalmente sua prima Glorinha, a vejam passar gloriosa pela última vez.

A morte adquire tonalidades inesperadas em A Falecida. Ela é tratada como bem de consumo. Na loja funerária frequentada por Zulmira, há lugar para o flerte, a sedução, a dissimulação. A descrição de um funeral pode adquirir matizes de conversa erótica. Zulmira, por exemplo, tem um argumento imbatível a seu favor quando diz: “A uma morta não se recusa nada”.

Como sempre em Nelson Rodrigues, os personagens guardam suas razões em baixo dos panos. E elas vão aparecendo pouco a pouco. O motivo da fixação de Zulmira em Glorinha é um dos golpes de mestre da dramaturgia rodrigueana e um prato cheio para psicanalistas de plantão. Temas como o ressentimento, a vingança e a programação da própria morte ganham corpo nessa personagem que ocupa um lugar de destaque na dramaturgia brasileira. Tudo em Zulmira é impulso suicida, inclusive seu famoso banho de chuva, uma das cenas mais memoráveis do nosso cinema.

Apesar da chuva, podemos dizer que Leon Hirszman e Eduardo Coutinho fizeram uma leitura enxuta da peça. Eliminaram todas as ênfases teatrais e procuraram um estilo próximo do neorrealismo italiano. O subúrbio aparece sem caricatura, mas como um lugar melancólico com seus banheiros coletivos, paredes manchadas, geladeiras descascadas, o telefone emprestado no boteco. É o Rio dos bondes e trens, da Rua do Ouvidor e das antigas leiterias do Centro da cidade. Além do Maracanã, é claro. Não existe glamour, mas também não há zombaria. O subúrbio era onde Leon Hirszman se criou e onde muito haveria ainda de filmar.

“A Falecida” não é um filme ávido pelos diálogos cortantes de Nelson Rodrigues. Ao contrário, há muitos silêncios. Os atores têm tempo para sentir o que pensam e dizem. As interpretações são sóbrias e interiorizadas.

Nelson Rodrigues não gostou muito do que viu na tela. Achou tudo “preto e branco demais”, e não estava se referindo exatamente às cores. Disse que o filme era ele, sim, mas sem humor.

Nelson tinha lá suas expectativas. Mas basta ver “A Falecida” para perceber que tragédia e comédia se encontram às escondidas no filme inteiro, como dois amantes.

De qualquer forma, esta é uma adaptação diferente, feita por intelectuais de esquerda e identificados com o cinema europeu. O tratamento do tempo é mais distendido. As imagens criam atmosferas e dão ao espectador o sentimento dos lugares. A câmera de Dib Lutfi faz um verdadeiro dueto com o rosto de Fernanda Montenegro em closes lindíssimos.

A iluminação ficou a cargo do fotógrafo José Medeiros, que pode ser visto rapidamente no papel do médico de Zulmira. Outra curiosidade no elenco é a primeira atuação de José Wilker, numa pequena ponta perto do final. Ivan Cândido é o eterno marido infeliz, que vai encerrar o filme com uma máscara dramática inesquecível.

Um comentário sobre “A morte como bem de consumo

  1. Como semrpe ótimo texto, dessa vez sobre o melhor filme baseado em Nelson Rodrigues.
    No capítulo 3 do meu artigo sobre algumas personagens femininas que foram levadas dos palcos para as telas do cinema brasileiro eu abordo a ‘Zulmira’ de “A Falecida” O artigo se chama “Quando as mulheres gostavam (?!) de apanhar – ou – Narrativas femininas nos primeiros filmes baseados em peças de Nelson Rodrigues” que foi publicado na revista virtual “Trivium”, da Universidade Veiga de Almeida. Quem tiver curiosidade (e paciência de ler), vá em http://www.uva.br/trivium/edicoes/edicao-i-ano-iv/artigo.htm

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