Pílulas na rede 13

Esperei até o último crédito de ENTRE O AMOR E A PAIXÃO, depois revirei as cadeiras, fui à cabine de projeção, tudo na esperança de encontrar o que tanto tem maravilhado meus colegas críticos. Em vão. Voltei pra casa apenas com uma historinha de adultério supostamente contemporânea e no fundo bem chinfrin. Michelle Williams é ótima, faz a gente viver com intensidade o dilema da personagem, mas não há muito o que extrair dali. O marido é um bobão que não tem assunto nem classe ao comer, e ainda prefere as receitas de frango à canja que a mulher lhe dá toda noite. É lógico que ela vai ceder à paixão pelo vizinho charmoso, meio artista e “interessante” até quando está calado. A insistência em movimentos circulares (parque de diversões, travellings de passagem de tempo) quer enfatizar que a paixão é um círculo, um fogo com os dias contados. Tudo bem careta, apesar dos toques de estranheza do início e das despropositadas inserções de ménage à trois num roteiro de resto bastante sóbrio. A diretora Sarah Polley tem sensibilidade com os atores e com a câmera, mas a meu ver é muito superestimada por aí. Já não sei se aguardo com tanta ansiedade seu elogiado doc STORIES WE TELL.

INFÂNCIA CLANDESTINA é muito bem filmado e tem momentos inspirados, mas está longe de ser essa coca-cola toda. Pra começar, não traz nenhuma novidade para o tema de meninos na ditadura, a não ser talvez pela comparação entre o amor e os amendoins com chocolate. Depois, há um excesso de pathos que se traduz no maior índice de abraços por filme do cinema mundial recente. O filme não perde uma chance de diluir os conflitos da luta de resistência no mel do drama familiar. Por fim, aquele final insinuando que a avó medrosa tinha razão me deixou intrigado num filme feito por filho de revolucionários e dedicado aos militantes montoneros. Mesmo assim, e nisso posso parecer contraditório, acho que é um bom filme e merece ser visto, mas sem expectativas exageradas.

Vi AMOUR do Haneke. Como de costume, ele nos confronta com nossos maiores temores. Nesse caso, o de ver a pessoa amada se “afastar” e definhar em função de uma doença. Quem de nós já não passou por isso ou teme passar? Mas o grande trunfo de Haneke é não fazer disso um drama. Quem chora e mais parece se comover são os envolvidos menos diretamente. O marido cuida da mulher com devoção e ao mesmo tempo com uma tristeza profunda, seca, quase uma dureza. Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva (a de “Hiroshima Mon AMOUR”) têm performances de uma sutileza e de uma veracidade angustiantes. A crueldade de Haneke nunca esteve tão doce e moderada. O filme é tão sóbrio quanto magistral.

Tem filme de ação que é mais filme de falação. O HOMEM DA MÁFIA é um deles. A violência é concentrada em poucas e fortes cenas, algumas delas superestilizadas com música romântica, superslow motion etc, como um Tarantino sem o humor. No mais, prevalecem os personagens com suas manias e modos típicos de falar. O problema é que tampouco nos personagens vamos encontrar muita substância. São somente cascas de estilo e maneirismos de atuação. Então a gente fica ali à espera de alguma coisa pra curtir até confirmar que o filme promete muito mais do que cumpre. O anterior de Andrew Dominik, O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD, tinha bem mais corpo debaixo da capa de grife. A forçadíssima argumentação paralela entre o individualismo do submundo do crime e a plataforma coletivista de Obama soa bastante gratuita e puramente retórica. Menos que um discurso sobre a América contemporânea, é um atestado da diluição do cinema americano de máfia de outras épocas.

CONSTRUÇÃO é o tipo de documentário que toma uma fórmula – o filme de família – sem ter muito em que aplicar. Carolina Sá teve um pai bacana, arquiteto cheio de ideias sobre a relação entre casas e gente, e que adorava filmar a família. Teve uma filha com um pai cubano, que ela agora adora filmar. Juntou uma coisa com a outra ao som de cartas e considerações ligeiramente filosóficas. Fez um longa bem curtinho, mas que de tão dispersivo e vazio parece durar bem mais tempo. O recurso da montagem de concluir cenas aleatoriamente com “fades” diz bem do caráter aleatório de tudo aquilo. No fundo, não é bem um filme. É como assistirmos a uma sucessão de cenas domésticas de gente que não conhecemos, sem um plot nem uma especificidade que justifique torná-la tão pública. O que não quer dizer que a pequena Branca não seja uma menina adorável.

AS PALAVRAS tem muito de uma concepção midcult americana do que seja literatura de ficção: histórias arrancadas da vida de seus autores, coisas mais vividas que inventadas, matéria dos bestsellers “humanos”. Daí o dilema ético que anima o filme sobre um escritor que narra a história de outro escritor que publicou um livro escrito por um terceiro. Essa espiral de autorias se reproduz na espiral de narradores, que cria uma camada de offs meio enjoativa. A inconsistência parte do princípio deflagrador: como alguém publica como seu, sem mudar uma vírgula, um livro que outra pessoa escreveu e pode aparecer a qualquer momento para cobrar seus direitos morais? Ou seja, apesar do tom sóbrio e das boas atuações, temos um arcabouço inconsistente em torno de duas ou três histórias igualmente sem firmeza.

OS PENETRAS tem produção, direção, fotografia, direção de arte e montagem superiores à média das neochanchadas do momento. Mas nada disso disfarça a indigência da trama e das situações básicas do roteiro. Não há quase nada além de velhas piadas com a libido, os pequenos golpes e a amizade masculina pairando sobre todo interesse romântico. Pode não ser ofensivo, mas tampouco é minimamente criativo. A ausência de legítimo humor nas falas é gritante, restando um ou outro lampejo de graça de um ou outro ator. Prevalece a ideia de que comédia dispensa engenhosidade e inteligência. Basta apertar alguns botões e a plateia cairia na gargalhada. OS PENETRAS pode até fazer número nas bilheterias, mas não vai elevar o nível do gênero. Talvez venha a se tornar uma espécie de filme-síntese de um Rio de Janeiro festivo, feliz e glorioso que a cultura oficial da cidade quer estimular.

Como todo filme de Leos Carax, HOLY MOTORS é maluquete, inconsequente, extravagante – e muito bonito. HM é um sonho de cineasta (literalmente, pois começa com o próprio Carax levantando da cama e entrando num cinema). O personagem central, vivido magistralmente pelo pantomímico Denis Lavant, é um coringa cinematográfico, que entra e sai de 11 personagens ao longo de um dia muito louco em Paris. Cada tarefa do Sr. Oscar é uma referência a um gênero de cinema, do musical ao filme de atentado, da ficção científica à comédia de humor negro. A gente custa um pouco a entender o código proposto por Carax, que é o salto mortal na representação, é o cinema espelhando a si mesmo e não à vida, é o avesso do avesso do avesso do avesso. Mas quando as últimas cenas trazem as derradeiras surpresas, já estamos preparados para tudo, inclusive rir da ingenuidade engenhosa dessa fábula.

DISPAROS, de Juliana Reis, chegou atrasado à festa dos roteiros multiplot tipo “Crash” e “Short Cuts”. Chegou com uma boa premissa: indagar sobre os dilemas éticos em torno da violência urbana e da solidariedade às vítimas. Mas há uma distância muito grande que, a meu ver, não consegue transpor entre concepção e realização. Percebemos os dilemas intelectualmente, embora o filme tente em vão nos fazer vivê-los emocionalmente. Os diálogos nunca transcendem os chavões de cada situação, o ritmo se dilata além da conta nas cenas da delegacia e alguns piques dramáticos femininos são duros de roer. Além disso, a estrutura do roteiro parece fruto mais de uma deliberada construção para que diversos encontros sexuais se realizem simultaneramente do que para atender a uma imposição da própria história.

2 comentários sobre “Pílulas na rede 13

  1. Carlinhos,

    Concordo quase que integralmente com suas observações sobre “Entre o amor e a paixão”. A história é banal, os personagens fraquinhos, uma afetação narrativa desnecessária. Michelle Williams brilha, apesar de tudo. Discordâncias: o vizinho, na minha opinião, tem o charme fake de artista fake. Não me convenceu. O marido, pelo menos, sabe cozinhar. O que estraga o cardápio é a falta de assunto. Só não vale desanimar quanto a ‘Stories we tell”. O filme tem uma trama surpreendente e personagens emocionantes. Confira.

    • De fato, aquele vizinho é o clichê do clichê. E por que todo personagem “interessante” tem que ser meio artista? Que saco! Quero um agrônomo ou uma enfermeira interessantes!

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