Cenas de um casamento

Já li pelo menos dois críticos que fizeram restrições a Liv & Ingmar por não explorar melhor a relação cinematográfica entre Liv Ullmann e Ingmar Bergman. Esse é o tipo de comentário que prefere levar em conta suas próprias expectativas em vez da proposta do filme. Talvez a proposta de Liv & Ingmar não seja a mais “nobre” do ponto de vista das expectativas de cinéfilos e críticos. Como bem adianta o título, não é um filme sobre cinema, mas sobre amor.

Liv Ullmann, com uma serenidade ampliada pelo tempo, recorda diante da câmera as várias fases de seu relacionamento com Bergman e a maneira como isso alimentava ou se refletia na filmografia do diretor. Uma edição às vezes excepcional cuida de expor esses ecos, fazendo com que cenas dos filmes “ilustrem” o relato da atriz. Trechos de cartas e bilhetes, além de excertos do livro de memórias Mutações, de Liv, lidos por ela em off, ajudam a compor as cenas de uma relação complexa, intensa e nada tranquila. Houve tanto uma “insaciável fome de estar juntos” quanto uma incompatibilidade que leva Liv a admitir: “Uma das melhores memórias que tenho dele é a separação”. Havia a doçura da criação em conjunto e também a violência, a crueldade, a vaidade e o egoísmo de Bergman. O amor não impedia que Liv reconhecesse tudo isso no parceiro.

Como Ingmar não estava mais aí para contar sua versão, nem o filme se ocupa de coletá-la postumamente, ficamos com esse ponto de vista unilateral da mulher – uma mulher admirável que não se furta a reconhecer sua submissão, sua dor e o fardo doce que carrega pelo resto da vida. “Fiz tanta coisa sem ele e continuo sempre tendo que falar dele”, lamenta em dado momento.

O diretor indiano baseado em Londres Dheeraj Akolkar (assistente de direção em famosas produções bollywoodianas como Devdas e Black) fez um trabalho relativamente discreto, procurando rimas entre o tom de voz, a cor dos olhos de Liv Ullmann e a maneira de filmar a casa do casal e as paisagens da ilha de Farö. Essa busca de uma beleza um tanto convencional, somada ao uso de uma trilha musical adocicada, não condiz muito com o universo bergmaniano. Mas, ainda aqui, é preciso não confundir as coisas. Liv & Ingmar não é o 67º filme de Bergman, nem o 7º de Liv Ullmann. É apenas um documentário sobre o nascimento, a morte e a vida eterna de um amor. E nisso tem lá sua beleza.

2 comentários sobre “Cenas de um casamento

  1. Carlos Alberto, leio sempre suas crônicas e análises, neste seu blog afinadíssimo e sempre atualizado. Mas desta vez deu-me muita vontade de ver o filme, tão logo possa, pelas personagens mesmas, especialmente essa mulher com “a serenidade ampliada pelo tempo”, e seu testemunho de conviver com um gênio da arte, num documentário sem maiores brilhos – eis o rastro que ficou comigo e vou na busca. Abraços

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