O círculo do fracasso

Filme de impacto no Brasil de sua época, Os Cafajestes ajudou a criar uma mística para o nascente Cinema Novo. Misturava crítica social com erotismo numa história de nítido fundo moral. O escândalo das cenas de nudez e de consumo de drogas, instigado pela censura e a autocensura, resultou na proibição para menores de 21 anos, até então inédita, e num dos maiores sucessos de bilheteria do período.

Foi o cartão de visita de um diretor com forte personalidade estilística, que trouxe marcante influência da Nouvelle Vague francesa e antecipou elementos de uma estética do futuro Cinema Marginal. O filme consagrou dois tipos muito frequentes no cinema brasileiro dos anos 1960: Jece Valadão como encarnação do “cafajeste” e Norma Bengell como símbolo sexual.

Um playboy em apuros, um machão cínico com ambições de ascensão social, uma mulher de boate e uma jovem de classe média alta. Com esses quatro personagens, mais um carro, um revólver, uma máquina fotográfica e as ruas e praias do Rio de Janeiro, Ruy Guerra construiu uma espécie de strip tease moral dos apetites burgueses na virada dos anos 1950 para 60.

Chamam atenção a escassez de recursos de produção e a concentração radical dos elementos para contar a história desses dois anti-casais unidos e separados pelo desejo, o espectro da chantagem e uma tensão permanente. Ruy Guerra queria fazer um filme barato e que afrontasse os tabus da época. Filmou somente em exteriores, explorando excessos de luz e zonas de obscuridade, utilizando os cenários naturais como massas dramáticas e os corpos dos personagens como pontos de convergência de todos os interesses.

Trata-se de um filme extremamente másculo na forma como apresenta o corpo feminino, sempre numa perspectiva de cerco, captura e desnudamento. Os faróis do carro, a câmera fotográfica, o revólver, as torres e canhões do forte, tudo em torno das mulheres assume um caráter fálico, muito embora a sombra da impotência vá se manifestar na segunda fase do filme, a fase noturna. Os fetiches sexuais se manifestam através de sapatos, braceletes e peças de roupa, que frequentemente substituem a relação propriamente dita. Numa época em que a virgindade ainda era uma questão e Copacabana, um ideal, Os Cafajestes monta sua equação crítica: o uso da moralidade como moeda não deixa espaço para o amor acontecer, gerando frustração e derrota.

Nesse primeiro longa-metragem de sua carreira, o moçambicano Ruy Guerra não compartilhava as preferências temáticas dos seus colegas de Cinema Novo, como o debate político e as condições do Nordeste, que só estariam presentes no seu filme seguinte, Os Fuzis. Por conta do estilo europeizado (ele estudara no IDHEC de Paris), foi posto um tanto à margem, embora o sucesso do filme muito tenha servido à causa cinemanovista. Curiosamente, como bem notou Luís Alberto Rocha Melo, Os Cafajestes antecipou características que seriam desenvolvidas mais tarde pelo dito Cinema Marginal. Entre elas, a falta de rumo certo para os personagens, o individualismo, a abordagem direta do sexo e das drogas e até a presença do rádio como contraponto narrativo.

O som, aliás, é usado de maneira altamente expressiva, longe de qualquer função naturalista. A música de Luís Bonfá, cheia de vocalises abstratos, participa da alternância entre torpor e exasperação no comportamento dos personagens. Mas é interessante notar que na clássica sequência do cerco a Norma Bengell nua na praia, a música cede lugar aos gritos de Daniel Filho, à buzina obsessiva e ao ruído do motor do carro. Os sons inerentes à própria cena ampliam o efeito dramático da humilhação e da exploração do corpo feminino. Outro momento notável nesse sentido é a intercalação das falas sobre Bíblia e sexo na conversa com as mulheres no forte de Cabo Frio. Essa dualidade moral perpassa o filme inteiro como um discurso sobre o amoralismo dos personagens.

Em comum com o resto do Cinema Novo está a denúncia da alienação da classe média. A indiferença de Jandir (Valadão) aos acontecimentos do mundo e sua distância em relação à classe trabalhadora são referidas explicitamente. O universo dos cafajestes é um círculo desenhado pelo fracasso.

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