Pílulas 24

Faz uma hora que acabei de ver O MEU PÉ DE LARANJA LIMA e ainda me pergunto por que refazer esse filme hoje? Sim, claro, porque eles quiseram, reuniram as condições e têm todo o direito. Mas o projeto me pareceu de tal forma vazio que custo a entender. Não há qualquer “atualização”, nem tampouco uma estrita observância ao original – passado numa época em que não havia CDs nem reais na carteira. O filme se pretende atemporal (vide o carro do Portuga), mas cria uma perspectiva de flashback que nada acrescenta à dramaturgia do roteiro. De resto, é morno, preso demais ao tema da tristeza infantil, afogado numa trilha musical quase insuportável de tão melosa, confuso nos sotaques e na decupagem espacial. A árvore do título, amigo imaginário fundamental no livro, quase desaparece nessa adaptação que só vê Zezé como o coitadinho da fita. Enfim, por quê?…

Não me entusiasmei tanto quanto o meu amigo Marcelo Janot a respeito do argentino QUERIDA, VOU COMPRAR CIGARROS E JÁ VOLTO. Achei pretensiosamente filosófico por um lado e chulo por outro. Acho que tratar o tema da mediocridade não justifica uma realização medíocre como esta. A fábula de retorno ao passado incide nos “achados” mais óbvios, como os relativos ao 11 de setembro e à canção de John Lennon. De resto, o grande “atrativo” do filme parece ser a quantidade de “mierda” e “hijo de puta” que os personagens e o narrador repetem incessantemente. As intervenções metalinguísticas do escritor Alberto Laiseca também me soaram bastante enfadonhas, acrescentando um peso conceitual que a comédia dispensaria perfeitamente em troca de um roteiro mais imaginativo. O desfecho em Paris, então, me pareceu o tiro mais certeiro… na água.

István Szabò tem em ATRÁS DA PORTA um dos seus filmes mais fracos. É mesmo difícil acreditar que o brilhante realizador de MEPHISTO e CORONEL REDL tenha chegado a tal nível de inconsistência dramática e convencionalismo narrativo. A relação entre a patroa burguesa e a empregada de passado complexo é apenas rascunhada sem nenhuma sutileza. Tudo soa exagerado e “simbólico” demais. Um odor de naftalina emana da tela bem antes que a tal porta se abra e revele… nada! Helen Mirren faz o reverso da Rainha, embora na verdade continue a fazer a Rainha, só que com figurino mais humilde. Mas nem ela consegue injetar vida a essa caricatura de melodrama classista, supostamente assombrado por fantasmas de uma História centro-europeia que não chegam a dar as caras. Eis aí um filme capaz de mostrar como o tempo pode ser muito cruel até para alguns grandes cineastas.

Mesmo que ainda venha a fazer muitos filmes, Alain Resnais, aos 89 anos, fez uma espécie de testamento em VOCÊS AINDA NÃO VIRAM NADA, de 2012. Um testamento cheio de ironias com o teatro, o cinema e a morte. No filme, o testamento de um diretor de teatro pede a reunião de vários atores que já trabalharam em uma peça sua, baseada em Orfeu e Eurídice. É o pretexto para o próprio Resnais reunir um elenco de veteranos com quem já trabalhou em muitos outros filmes, somando alguns mais recentes. Eles assistem num telão a uma nova (e jovem) montagem da peça e gradativamente “retomam” seus respectivos papéis. Duas peças se acoplam, plateia e palco se misturam, teatro e cinema se mesclam de maneira inextricável. Se o diretor da peça-dentro-do-filme é um mestre em “golpes” de teatro, Resnais é mestre em “golpes” de cinema. As fronteiras entre os suportes, assim como entre a vida e a morte, são cruzadas com elegância e um buquê de interpretações magnetizantes, os atores todos envolvidos num halo de luz que praticamente os retira do plano da realidade. O golpe final vem com um Sinatra inesperado nos letreiros. Não é um grande Resnais, mas mesmo os Resnais médios já são grandes.

Só agora tive a chance de ver O EXERCÍCIO DO PODER, aclamado thriller político francês lançado aqui no ano passado. Confesso que patinei um bocado no turbilhão de referências às particularidades da política francesa. Mas creio ter captado o essencial: o exercício da política é quase sempre uma derrota. É ser devorado por crocodilos, que por sua vez são devorados pelas dinâmicas da sociedade. É lançar mão de privilégios, como usar uma estrada ainda não inaugurada, e ser massacrado por eles mais adiante. É isso tudo e ao mesmo tempo é uma paixão doentia, que não se cura com pílulas nem com porres. Um filme seco e exigente, pontuado por febres sonoras e alegorias oníricas. Não sei se gostei, mas saí do pendrive impressionado. 

Não se pode dizer que A CRIADA (La Nana) faz um serviço perfeito. Algumas razões do comportamento de Raquel ficam mal explicadas, assim como a virada decisiva me soou um tanto implausível. Mesmo assim, o filme chileno faz uma interessante parábola (quase sinistra) daquele jargão de que a empregada doméstica faz “parte da família”. A trama das afetividades acaba sendo a chave com que o filme tranca suas portas, deixando a questão de classe do lado de fora. O que mais me interessou, porém, foi a maneira como Sebastián Silva opera sua observação daquele grupo, os jogos de olhares dentro da casa, os silêncios cheios de queixas e tensões, a dinâmica das pessoas entre os vários cômodos da casa. Nisso há uma precisão muito boa da parte da direção, do elenco e da câmera. La Nana é de 2009, e seu lançamento dá início à desova dos filmes sobre domésticas na onda do PEC. Vêm aí DOMÉSTICAS, de Gabriel Mascaro, e ATRÁS DA PORTA, de István Szabò.

Na onda recente de releituras de contos de fadas no cinema, o espanhol BLANCANIEVES (inédito comercialmente no Brasil) é certamente uma das mais interessantes e originais. Ambientada na Sevilha dos anos 20, apropriadamente em preto e branco e sem falas, essa Branca de Neve é filha de um toureiro que cresce maltratada pela madrasta até ser resgatada pelos 7 Enanitos Toreros e se tornar ela mesma uma toureira de sucesso. A coisa termina de maneira um tanto necrófila, mas tudo resolvido dentro do universo das touradas e dos espetáculos populares. No centro de tudo está o olhar, ligação decisiva entre o touro e o matador, mas também veículo de inveja e sedução. Maribel Verdu faz uma madrasta fashion, melindrosa venenosa. Há citações de “Psicose”, “O Que Terá Acontecido a Baby Jane”, “Crepúsculo dos Deuses” e “Freaks”, entre outros. A trilha musical de Alfonso de Villalonga conduz o filme inteiro de maneira empolgante. Uma Branca de Neve em ritmo de flamenco era tudo o que faltava aos Irmãos Grimm.

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