Pílulas 33

RENOIR é aquele típico filme sobre pintor que se contenta em reproduzir a luz e a atmosfera que teriam inspirado seus quadros. A luz de fato é linda, e você pode ouvir as minúcias sonoras da campagne como na Côte d’Azur de 1915. Mas não espere muito mais do que isso. O filme enfatiza o contraste de duas gerações: Pierre-Auguste Renoir em seus últimos anos, entrevado pela artrite e encantado com a nova modelo, Dedée; e o filho Jean, que volta da guerra e inicia sua paixão pelo cinema, não sem antes cair de amores por Dedée. Michel Bouquet está muito bem como o velho pintor, embora só lhe sejam dadas frases lapidares como “A dor passa, a beleza fica” e “um quadro deve ser uma coisa amável e feliz”. Talvez para concordar com ele, Gilles Bourdos mantém seu filme escrupulosamente nos limites do “bom gosto”, deixando bem à margem as sombras da I Guerra Mundial, então em curso. O resultado é um grande e bonito vazio dramático. Vincent Rottiers não sugere nem de longe o que seria o jovem Jean Renoir, mas Christa Theret, com suas curvas roliças e voz rouca, quase convence como Dedée, a futura esposa de Jean. Rebatizada como Catherine Hessling, ela atuaria nos primeiros filmes do marido e de Alberto Cavalcanti. 

Como é reconfortante voltar à solidez da parceria Von Trotta/Sukowa. HANNAH ARENDT é um sóbrio “slice of life” da filósofa durante a preparação, publicação e discussão dos seus famosos artigos sobre a banalidade do Mal. A situação dela demonstra como a ousadia de pensar pode ser arriscada num meio dominado pela paixão política. Não há endeusamento de Hannah, embora o filme sublinhe sua coragem. Um senão: na tentativa de dar espessura humana à personagem para além de suas formulações de pensamento, Margarette Von Trotta criou cenas bem banais com o companheiro Heinrich Blutcher (o ator é a cara do Zé Dirceu!). Achei curiosa a forma como são usadas as célebres imagens de TV e o áudio reais do julgamento de Adolf Eichmann: ora em contracampo com a reconstituição em cores da plateia, ora sendo acompanhados pela TV, ou ainda repercutindo na memória da filósofa. Essa relação entre arquivo e dramatização equivaleria à relação entre os fatos observados e a elaboração intelectual de Hannah a partir deles. Para uma visão mais aprofundada do filme, leia a resenha de Luiz Fernando Gallego.

A Casa Daros é uma beleza de lugar. A exposição colombiana em cartaz traz peças incríveis como essas figuras de Disney no estilo de esculturas pré-colombianas, trabalho de Nadín Ospina. Além de várias obras sobre conflitos e violação de direitos humanos na Colômbia. A casa faz projetos muito bacanas de arte e educação envolvendo comunidades, escolas públicas e organizações sociais. Mas de repente você chega no restaurante ou na lojinha e parece que chegou à Suíça (onde está a base da Daros). Itens finos e charmosos a preços exorbitantes. Então você compreende que existe ali uma imensa contradição. Os personagens das obras latino-americanas e os participantes dos projetos educacionais jamais poderiam consumir o que ali se vende. A arte engajada e o modelo de negócio se chocam, ou pelo menos se mantêm separados como água e azeite. 

Vi finalmente o hit nordestino AI QUE VIDA!, fenômeno de pirateria (misto de pirataria e bilheteria). Filmado com desenvoltura e alegria por Cícero Filho no Piauí e no Maranhão, é um remeleixo de drama romântico, comédia de costumes e sátira política que dá de dez nas globochanchadas. Ali os clichês são utilizados como uma celebração de desejos, uma ingenuidade que pisca o olho para a proverbial sabedoria popular. A estética da televisão, claro, está na base de tudo, mas é ao mesmo tempo subvertida pela franqueza da cena, pela disponibilidade total dos atores não profissionais, pela criativa incapacidade de copiar (como dizia Paulo Emilio). Ali tem algo de uma Bollywood pobre e tropical que ainda não aprendeu a dançar. E, na tradição das Sucupiras brasileiras, tem uma funerária cujo funcionário atende assim o telefone: “Funerária Santa Luzia, sua morte é nossa alegria”. Ai que filme! Leia mais sobre Cícero Filho.

Blockbuster filosófico pode ser o gênero híbrido a que pertence A VIAGEM (Cloud Atlas), mastodonte de quase 3 horas dirigido a seis mãos por Tom Tykwer e os irmãos Wachowsky. Foi lançado em janeiro, mas só vi agora. Não vou comentar o lero-lero sobre vidas interconectadas, almas renascidas em tempos diferentes e ecos de vidas passadas. Aquilo tudo me enjoa mais do que 6 kg de pipoca doce. Nem vou falar dos paralelismos fáceis, nem das alternâncias incessantes que liberam os roteiristas de criar histórias minimamente sólidas. Deixo pra lá até mesmo o caráter de pastiche que engloba diversos filmes de sucesso no passado. Mas quero registrar duas coisas: a semelhança de argumento com a animação brasileira UMA HISTÓRIA DE AMOR E FÚRIA, que trata de sucessivas reencarnações de um personagem desde o século XVI até um Rio de Janeiro distópico no futuro; e a caracterização dos atores para cobrir distintos personagens nas várias épocas. O trabalho de maquiagem é propositalmente grosseiro para funcionar como máscaras. Mas a brincadeira vai além: os atores aparecem travestidos de gênero e de raça, gerando misturas monstruosas que situam o filme num estranho limbo entre a ficção científica, o drama policial e a comédia maluca. O hibridismo é mesmo a linguagem do nosso tempo, em todos os níveis.  

2 comentários sobre “Pílulas 33

  1. Depois de apreciar as obras na Casa Daros, deixando o antigo e belo colégio, totalmente restaurado, preservado, saí com a imagem da violência, tanto do narco como das milícias, com depoimentos tristes do povo oprimido. Mas algo estava incomodando, agora lendo o seu comentário, tenho certeza que foi esta contradição, de uma exposição mostrando a carência de tudo, que poderia ser em qualquer país latino americano. e o luxo do Restaurante e da lojinha, com preços totalmente fora do meu alcance.
    Notei, que a lojinha da Daros, como da MAM- Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro,, pertence ao mesmo grupo, pois são mesmos tipos de produtos, belos e caríssimos. No MAM a exposição é sobre América do Sul, a POP Arte das Contradições.

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