Pílulas 38

O VERÃO DO SKYLAB é um gênero de filme em que os franceses são craques, vide desde UNE PARTIE DE CAMPAGNE do Renoir até MILLOU EM MAIO do Malle. Uma grande família ou grupo de amigos se reúne numa casa de campo e expõe sua diversidade emocional, política, comportamental, etc. Ao contrário da maioria desses filmes, LE SKYLAB, passado em 1979, não tem um acontecimento nem um personagem central. O interesse é randomicamente distribuído entre jovens e velhos, direitistas e esquerdistas, “saudáveis” e problemáticos. Há apenas um pequeno destaque para o despertar amoroso da adolescente Albertine – e daí a “moldura” atual que nada acrescenta. Mas Julie Delpy demonstra pulso firme e sensibilidade na condução desse painel multipolar e do elenco simplesmente luminoso. Há uma sequência antológica de baile jovem e um diálogo tristemente premonitório da morte precoce de Bernadette Lafont em julho último. O filme é de 2011 e está bem mais próximo de uma tradição humanista da comédia francesa do que das neochanchadas que vêm dominando o cinema de lá nos últimos anos.

Daniel Burman já teve dias bem melhores. A SORTE EM SUAS MÃOS parece filme de um diretor que resolveu tirar férias da criatividade para se refestelar no sofá dos clichês de comédia romântica. A historinha desses antigos namorados que se reencontram em outra fase da vida é tão previsível quanto banal. Seria inadequado dizer que a influência da coprodução brasileira é responsável pelo aspecto de globochanchada, então não vou dizer. Mas, afora uma certa fluência narrativa e um ou outro diálogo espirituoso, quase nada lembra o autor de bons filmes como DOIS IRMÃOS, O ABRAÇO PARTIDO e ESPERANDO O MESSIAS. A simpatia dos personagens é anódina, como aquele sorriso de manequins de papelão. Jorge Drexler, em que pese a boa aparência, jamais será um novo Ricardo Darín. E não precisava ter um personagem chamado Uriel às voltas com um… urologista. Nem trazer de volta a chatíssima Nueva Trova argentina. Esperemos o próximo Burman.

Depois de meia-hora de filme, eu comecei a me perguntar o que estava fazendo em companhia de FRANCES HA. Tudo bem, a Greta Gerwig é uma fofura, o diretor Noah Baumbach gosta de Nouvelle Vague (entope o filme de citações colegiais de Truffaut), a fotografia preto e branco até pode remeter ao Manhattan de Allen. Mas o que é feito com tudo isso? Muito pouco. Parece uma ficção etnográfica sobre como vivem os jovens smart de NY: tagarelice, afetação, falsa licenciosidade, ociosidade e sentimentos que parecem comprados no shopping. Frances é uma moça simpática que não faz nada direito, a não ser gostar. Mas tampouco consegue manter ao seu lado as pessoas de que gosta. Ela tem uma pegada clownesca que rende elogios, mas depois de 30 minutos de diálogos pseudo-witty e inanição dramatúrgica, o parafuso começa a rodar no vazio. Indie déja-vu.

É preciso reconhecer um panfleto mesmo quando ele está do nosso lado. O novo doc do oscarizado Alex Gibney, ​PARK AVENUE: MONEY, POWER AND THE AMERICAN DREAM (exibido no Festival Filmambiente), compara duas avenidas do mesmo nome em Nova York: a de Manhattan, onde moram alguns dos executivos mais ricos do mundo, e a do Bronx, onde reina a pobreza. Não que lhe falte razão ao mostrar como a concentração cada vez maior de riqueza em 1% da população americana tem a ver com o aumento do número de pobres e o agravamento de sua situação nas últimas décadas. Não lhe falta razão, tampouco, ao demonstrar a conexão dos bilionários com as pautas políticas conservadoras dos republicanos e do Tea Party mediante a descarada compra de apoio no congresso e quiçá acima dele. O problema de Gibney está na exposição editorializada e um tanto simplista de seus argumentos. Mesmo para um esquerdista de carteirinha, fica a nítida impressão de que lhe falta nuance em muitos casos. Michael Moore tinha o humor a seu favor e a cara-dura que Gibney parece utilizar em apenas uma ocasião, ao confrontar pessoalmente o direitista Paul Ryan. De resto, faz um libelo corajoso, mas panfletário, relacionando retoricamente dois extremos da sociedade americana. O filme foi realizado para a série Why Poverty?, junto com outros sete longas e 30 curtas de várias partes do mundo. Todos podem ser vistos on line ou baixados aqui.

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