Gata por lebre?

(Filme em cartaz no Instituto Moreira Salles. Texto publicado originalmente à época do Festival É Tudo Verdade 2012) 

Frederick Wiseman tornou-se um mestre por observar o cotidiano de várias instituições americanas e, com isso, abrir janelas para o funcionamento da sociedade. Assim foi com escolas, delegacias, manicômio, forum judiciário, jardim zoológico, indústria da moda, academia de ginástica etc. Sua estratégia de não intervenção, supostamente neutra, catalisa toda a nossa atenção para os mecanismos e relações humanas observados, gerando uma impressão de testemunho direto. Vez por outra, Wiseman desloca seu olho – e sobretudo seus ouvidos, já que ele costuma captar o som de seus filmes – para Paris. Crazy Horse é o terceiro tomo de um trilogia parisiense que inclui La Comédie Française (1996) e La Danse (2009, sobre o Balé da Ópera de Paris).

Não conheço o primeiro, mas La Danse e Crazy Horse têm como alvo mais o espetáculo que o funcionamento da instituição. Essa mudança de ótica se intensifica em Crazy Horse, levando a uma das maiores decepções que já tive com um trabalho de Wiseman.

A começar pelo objeto em si. O Crazy Horse, com seus shows de strip tease e insinuações fetichistas e sadomasô, é um dos entretenimentos mais decadentes e ultrapassados que existem na Europa. Atende principalmente a turistas pequeno-burgueses, para quem ver mulheres “chiques” e seminuas dançando entre luzes coloridas ainda é um programa “ousado”. O conceito de mulher-objeto é celebrado em bundas iluminadas, meneios pseudoeróticos e sugestões de animalização dos corpos femininos.

Wiseman parece levar toda aquela vulgaridade a sério, submetendo-nos a longas performances aborrecidas. Quando vai para os bastidores, sucumbe a conversas sem rumo e claramente forjadas para a câmera. Ou então a falsas entrevistas para outros veículos, em que os responsáveis pela casa e o espetáculo se desdobram em autoelogios constrangedores. Tudo bem que o Crazy Horse seja uma “instituição” francesa em certo sentido, mas a falta de uma perspectiva crítica dá a entender que Wiseman estava colado àquela imagem ultrakitsch do erotismo comercial. Ou, quem sabe, comprando gata por lebre. Alguns poucos momentos mais reveladores, como a escolha das fotos dos clientes e das candidatas no teste, estão longe de justificar a opção por esse assunto nem muito menos um enfoque que se confunde com má publicidade.

Uma entrevista de Frederick Wiseman a propósito do filme: veja aqui

2 comentários sobre “Gata por lebre?

  1. Carlinhos, concordo com tudo, só acrescentaria que ver bem grande nos créditos finais como um dos principais produtores “Crazy Horse Productions”, é quase reconfortante: o filme não esconde o que é, um comercial gigante e luxuoso, exatamente como o Crazy Horze gostaria de ser visto – Mulheres lindas, mudas, sem pensamento nem vontade própria. Só pernas, peito, cílios postiços. Quando não é o show filmado – literalmente -, surgem as profundas questões existenciais do diretor artistico do espetáculo na dúvida entre a luz vermelha ou roxa para o novo quadro. Das moças-objetos recortadas pelo quadro, nada saberemos. É de uma mediocridade perturbadora, não existe questão no filme, só exaltação de… do que exatamente?
    Mas Carlinhos, o tema é interessante ou poderia ser, mas como disse a a Gisella, a sensação que transparece do “velhinho que gamou” é totalmente verdadeira, a gente fica constrangida por ele, por nos impor um ponto de vista tão monotemático, bunda-peito-bunda…

  2. Acho que o velhinho depois da Lá danse gamou nas dançarinas e nao quer mais largar o osso!!! Alem de filmar tudo na altura das bundas, quis mesmo fazer um DVd do crazy jose ! Uma pena que perdi a paciência e sai perdendo a cena dos testes , talvez um
    Momento bom do filme !!!

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