Em cartaz e fora de cartaz

zemestan-its-winter-kış-rafi-pitts-2006-posterSEPARADOS PELO INVERNO talvez não seja o que o senso comum espera de um filme iraniano: não tem um personagem obcecado por algum objetivo, não tem gente se deslocando incessantemente, nem aquela poesia agridoce que encantou o mundo tempos atrás. E a única menina que surge na tela é não mais que um olhar expectante. Ainda assim, e por mais europeia que seja a formação do diretor Rafi Pitts, este é um filme profundamente iraniano. Isso está na rudeza de sua ambientação (periferia industrial de Teerã), na economia de seus recursos narrativos (um poema cantado diz mais do que todos os diálogos do filme) e na forma como a montagem exprime a reserva nas relações interpessoais. Assim como os personagens demoram a se encarar e conversam de maneira oblíqua, os diálogos são editados de modo a sentirmos essa dificuldade, retardando em muito a identificação completa dos interlocutores. O filme se constrói através de elipses: o marido viaja em busca de trabalho, o forasteiro inicia uma aproximação da mulher, chega a notícia da morte do marido, os caminhos não se cruzam inteiramente até que um novo inverno feche o ciclo que associa natureza e destino. Um filme iraniano, inclusive, na herança do neorrealismo italiano, com esse forasteiro inconformado, hedonista, que poderia ter saído de um filme de Pasolini. Ele transgride ao colocar o amor e a vida acima do mundo do trabalho.
Se você ainda não viu o filme, pule as próximas três linhas para não saber o final.
Ficou-me uma dúvida não esclarecida em relação ao marido: por que ele retorna sem uma perna? Qual a razão da visita do policial antes de sua partida? Onde ele esteve enquanto ausente?

Quem conhece melhor do que eu os interesses do público infantil atual garante que FESTA NO CÉU tem muitos atributos para agradar. A animação mexicana trata do Dia dos Mortos e do conceito segundo o qual as pessoas só morrem de verdade quando não houver mais quem se lembre delas entre os vivos. Assim, o mundo dos mortos se dividiria entre Os Lembrados e Os Esquecidos. O filme de Jorge R. Gutierrez, produzido por Guillermo del Toro, conta a história de um triângulo amoroso que envolve heroísmo, generosidade e egoísmo. Parte da trama se passa entre velas acesas, com personagens já falecidos, de olhos amarelos e espírito tão animado quanto o de qualquer vivente. Não posso deixar de ver isso como uma ousadia, assim como a ambientação num vilarejo pobre e poeirento, a estética rústica e hipercolorida da arte e da decoração mexicanas, ou ainda as sonoridades latinas que destoam do cardápio habitual das animações americanas. Mas no fim das contas a coisa toda me pareceu cansativa, com personagens humorísticos que não funcionam e uma trilha sonora meio preguiçosa (de Gustavo Santaolalla!), baseada em paródias de músicas conhecidas e outras novas imediatamente esquecíveis.

Só recentemente pude ver o biscoito fino norueguês BLIND, que havia perdido no Festival do Rio. Fui bem carregado pela história da professora que, depois de perder rapidamente a visão, se encerra em seu apartamento e passa a viver na imaginação literária aquilo que teme, suspeita e deseja. Com destaque para o sexo. O diretor e roteirista Eskil Vogt nos enreda aos poucos na trama ficcional construída por Ingrid, embora nunca nos afaste da situação que ela enfrenta de fato: o medo da perda de interesse pelo seu corpo. Os limites entre realidade e criação vão sendo borrados na medida em que Ingrid insere o marido em seu enredo e promove transferências, punições e fantasias. Pode não ser divertido como “Adaptação” de Spike Jonze nem complexo como o “Providence” de Resnais, mas tem ótimos insights sobre o terceiro olho da imaginação e as maneiras como podemos fazê-lo atuar de maneira cômica ou dramática. A atriz Ellen Dorrit Petersen é fenomenal na comunicação dos detalhes da cegueira e de uma sensualidade subitamente posta em crise. O resto do elenco não fica nada a dever, como sempre entre os nórdicos.

GRACE, A PRINCESA DE MONACO, previsto para estrear no Brasil em janeiro, tem sido massacrado pela crítica europeia. Os alvos têm sido principalmente o miscast de Nicole Kidman e Tim Roth como o casal Rainier, a visão kitsch da realeza e a ênfase em mais uma versão da “pobre menina rica”, princesa infeliz num “reino sem coração”. Não vejo tanto problema na altura e na idade excessiva de Nicole (45) para viver Grace aos 33 anos (é bem verdade que os supercloses nela captam mais botox que emoção), mas essa é também uma exigência careta. Nem me incomoda muito a cafonice, já que a intenção é mesmo colocar em xeque uma ideia de conto de fadas, ainda que seja somente para reconfirmá-lo depois de uma maneira mais “realista”. O filme procura um visual de cinema comercial do inicio dos anos 1960 para contar o período em que Grace questiona seu casamento e sua “gaiola de ouro”, sente-se tentada a voltar a Hollywood para fazer “Marnie” mas acaba se rendendo às obrigações da corte. Afinal, Mônaco está sendo ameaçada por De Gaulle de perder sua soberania e sofrer bloqueio. Olivier Dahan (“Piaf”) e seu roteirista Arash Amel correm para fazer dela uma heroína. Com faro de detetive para descobrir uma trama de traição (acontecida 12 anos antes do que se vê no filme) e um discurso xaroposo, Grace salva Mônaco, e a verdade histórica que se dane. Foi essa desajeitada combinação de drama pessoal e intrigas políticas que mais me desagradou. Soa mal romanceado e digno de quase nenhuma credibilidade. Mas para quem gosta de folhear revistas antigas, tem lá o seu charme.

 

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