Fênix documental

A seguir, algumas rápidas apreciações dos documentários a que assisti na seleção do Prêmio Fênix de Cinema Ibero-americano (veja esse post anterior). A cerimônia de premiação se deu no último dia 30, no México. O vencedor na categoria foi o catalão Sobre la Marxa.

Sobre la MarxaSOBRE LA MARXA, de Jordi Morató (Espanha)
Recuperação da história de Josep Garrell, um visionário que construiu sozinho uma cidadela-parque na Catalunha. Um garoto de 14 anos começou a filmá-lo em 1991 ao longo de seis verões. O doc incorpora esse material, mostrando as fantasias de Garrell, que assumia o papel de Tarzan. Encenação e registros reais se combinam para revelar um personagem inacreditável. Após 16 anos de trabalho e criação, ele teve seu parque atacado por vândalos e resolveu incendiá-lo completamente para anos depois reconstruí-lo com as próprias mãos: casas, torres e labirintos de madeira no meio da selva. Isso se repetiu por mais três vezes, quando Garrell foi obrigado judicialmente a desocupar o local. O diretor Jordi Morató o filma diretamente agora, já aos 76 anos, mas ainda construindo e brincando na sua terra (des)encantada.

Invasion-Abner-BenaimINVASIÓN, de Abner Benaim (Panamá)
Um autêntica obra-prima, para mim seria o vencedor do prêmio. O diretor coleta memórias de panamenhos sobre a invasão do país pelos EUA em 1989. Encontra de tudo: os ainda hoje indignados, os desapontados, os aliviados com a invasão, os aproveitadores. Gente que foi ferida ou se salvou milagrosamente, como a mulher que teve sua sala atingida por um míssil. Gente que ajudou a saquear o palácio presidencial, que se valeu da oportunidade para fugir do presídio, que ajudou os paraquedistas americanos a saírem de um lamaçal ou que ganhou uns trocados lavando os tanques inimigos. Há também o cantor que namorava uma secretária de Noriega e deu fuga a ele até entrar na embaixada do Vaticano. A questão central é discutir se a invasão e a renúncia de Noriega serão coisas do passado ou ainda convém relembrar. Um filme-processo que expõe o seu método e reencena momentos simbólicos do evento de 1989 para um clímax inesquecível: uma caminhonete carregada de “mortos” entra na Cidade do Panamá atual.

e agora lembra-meE AGORA? LEMBRA-ME, de Joaquim Pinto (Portugal)
Vários documentários já foram realizados a partir da doença terminal de seus personagens, constituindo uma espécie de subgênero, a auto-observação no limite entre a vida e a morte. Coube ao português Joaquim Pinto fazer um dos exemplares mais penetrantes e abrangentes. Ajudado por seu companheiro Nuno Leonel, ele relata um ano de experiências com drogas ainda não legalizadas contra a Aids, a hepatite C e a cirrose. Partindo da frase do amigo João César Monteiro, “cada doença tem um tempo e uma história”, Joaquim procura não apenas documentar suas dores, a confusão de ideias e os efeitos dos remédios, mas também transcendê-las através de um fluxo de pensamento poético sobre os vírus pessoais e sociais que corroem o corpo seu e do mundo. O filme é longo e poderia ser reduzido a bem da concisão. Mesmo assim, não há como ficar indiferente ao delicado experimentalismo de Joaquim, baseado principalmente na captação da natureza circundante e no uso dos tempos distendidos. É impossível não se deixar tocar pela profunda e calorosa reflexão que ele nos oferece sobre a fragilidade da vida e a vocação do amor e da arte para fortificá-la.

jaime roldósLA MUERTE DE JAIME ROLDÓS, de Lisandra Rivera e Manolo Sarmiento (Equador)
O breve governo de Jaime Roldós no Equador terminou abruptamente em 1981 com um misterioso acidente aéreo. Nada muito diferente do que aconteceria, no mesmo ano, com Omar Torrijos no Panamá, Rafael Hoyos no Peru e quase também com Jaime Paz Zamora na Bolívia, que escapou por um triz. Este doc faz uma investigação de fôlego, articulando as estratégias de colaboração de várias ditaduras latino-americanas da época entre si e com o governo Reagan. Roldós, o primeiro presidente eleito democraticamente naquele contexto, acolhia refugiados de outras ditaduras, liderou luta por direitos humanos no continente, apoiou sandinistas. Tinha que morrer. O filme se estende até a disputa do legado de Roldós, entre silêncio e estridência. Oportunista, o tio materno fundou o Partido Roldosista, com que chegaria à presidência. A filha Mariana também concorreu ao cargo, enquanto o filho Santiago, ator e diretor de teatro, é uma espécie de Hamlet desinteressado pelo poder e por reparar a morte do pai. Um drama shakespeareano sobre família e política, um filme notável.

segredo de las moscasEL SILENCIO DE LAS MOSCAS, de Eliezer Arias (Venezuela)
Na idílica região de El Páramo, nos Andes venezuelanos, os suicídios de jovens se multiplicam desde os anos 1990. Muitos deles pela ingestão de pesticidas e fungicidas, mas também por enforcamento ou tiros na cabeça. Este filme-ensaio se compõe de depoimentos em off de mães e pais, sutis encenações e vinhetas poéticas com objetos simbólicos “instalados” na natureza. Aos poucos desenha-se um quadro de desajustes causados por machismo, homofobia, conflitos geracionais, certa histeria religiosa, mitomanias, algum transtorno mental e falta de perspectivas. O permanente off cria um distanciamento interessante, uma alienação, um silêncio dentro das falas. As imagens são extremamente sofisticadas e a atmosfera de beleza triste se impõe com grande força emocional.

eco_de_la_montana-posterECO DE LA MONTAÑA, de Nicolás Echevarría (México)
Um bonito retrato do veterano artista indígena mexicano Santos de la Torre, comentado pelo próprio. O diretor o segue em visita a um museu de arte abstrata, uma festa em Zacatecas e uma peregrinação por lugares sagrados. Acompanha também a confecção de um novo mural como o que o presidente mexicano ofereceu de presente a Jacques Chirac e hoje decora uma passagem do metrô do Louvre – pelo qual o artista só teve remunerada a mão de obra e nem foi convidado para a inauguração. Mas o filme não é de ressentimento, e sim de interesse pela cosmovisão dos huichois, aditivada pelo culto religioso às propriedades alucinógenas do peiote (considerado o “terceiro olho”, o olho de Deus, e de onde se extrai a mescalina).

Ver_y_escuchar-278233800-largeVER Y ESCUCHAR, de José Luis Torres Leiva (Chile)
Um pequeno painel de histórias, lembranças e impressões de pessoas descapacitadas visual e/ou auditivamente. O dispositivo consiste em promover conversas entre elas, cujos sentidos se complementam. Todos parecem superar razoavelmente bem suas limitações. O filme perde força em função de depoimentos e conversas um tanto engessadas, à falta de maiores experiências diretas. Não vi grande novidade na abordagem do tema, mas agradou à maioria dos eleitores, que o indicaram ao prêmio.

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CARTA-A-UN-PADRE.-4CARTA A UN PADRE, de Edgardo Cozarinsky (Argentina)
Mais um exemplo que me pareceu superestimado, em que pese a tarimba do diretor. Ele lança um olhar nostálgico à trajetória de sua família de imigrantes que iniciaram a primeira colônia judaica da Argentina em fins do século XIX. O que era ser judeu na época de Hitler? O que seu pai terá visto em suas viagens pela Marinha? Como terá vivido o antissemitismo na Argentina? Terá colaborado com o nazismo? São muitas as perguntas deixadas sem resposta num documentário que se alonga sobre fotos, cartas, objetos e imagens de sol poente.

2 comentários sobre “Fênix documental

  1. Pingback: Melhores de 2014 | ...rastros de carmattos

  2. Pingback: Fênix documental | EVS NOTÍCIAS.

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