Cinco documentários

ad_1_gallery-cover_25405LIBERTEM ANGELA DAVIS já foi libertado do degredo na Gávea e pode ser visto também no Museu da República, em sessões diárias às 13h40. É um documentário bastante sóbrio a respeito de uma ativista sóbria. Passa muito rapidamente pela formação filosófica e ascensão política de Angela para concentrar-se na época de sua simpatia pelos Panteras Negras, o romance com o presidiário político George Jackson e principalmente a acusação de conspiração e cumplicidade com um atentado que tirou a vida de um juiz em 1970. Angela havia comprado uma das armas usadas no crime. O filme segue em detalhes a caçada, a prisão e o julgamento de Angela, assim como o movimento pela sua libertação que se espalhou por vários países. A diretora Shola Lynch é discípula de Ken Burns e diretora de um centro de pesquisa sobre cultura negra no Harlem. Ou seja, tem méritos técnicos e intelectuais. Abusa um pouco do recurso de destacar palavras e frases de jornais e documentos, mas de resto faz um trabalho imune a críticas. Utiliza uma entrevista recente de Angela como fio condutor para reunir um excelente material de arquivo e depoimentos da irmã, de amigos, jornalistas, advogados, do agente do FBI que capturou Angela e do juiz que a absolveu. Evita excessos de didatismo e sabe destacar os detalhes mais curiosos e ilustrativos de uma história exemplar em que os EUA mostraram o melhor e o pior de si.

10469864_620433481398297_7114835755341952919_nEm 2011, com uma bolsa da Funarte, Michel Melamed lançou-se à aventura de montar um espetáculo de rua em Nova York partindo do zero: SEEWATCHLOOK – O que Você Vê quando Olha o que Enxerga?. Ele mesmo filmou todo o processo, que resultou numa série do Canal Brasil em 2013 e depois numa condensação de 74 minutos, que poderá em breve ser vista no mesmo Canal Brasil ou no Now da Net. E o que vemos? Vemos desde o desempacotamento da câmera até a repercussão da performance em jornais e sites, passando pela procura de local para ensaio e encenação, busca de parcerias e autorizações, testes com atores e flashes da fabricação coletiva do espetáculo. Michel troca insights espirituosos com seus interlocutores, entre os quais produtores e performance artists como Vito Acconci e Linda Montano. Acaba passando um pouco do espírito de criação nova-iorquino, com tudo aquilo que o estimula e o constrange. Safa-se pela hiperfragmentação da montagem, daí tirando partido no humor e driblando limitações. Afinal, trata-se de um filme amador, diletante e improvisado, tudo no bom sentido. Bem-humorado como sempre, Michel assume o caráter doméstico de sua cinematografia com uma dessas câmeras compactas que perdem o foco com facilidade. Se isso traz graça na maior parte do tempo, também cobra seu preço na hora de mostrar as performances no High Line Park, que mal podemos deduzir como terão sido. De qualquer maneira, nada se compararia mesmo a estar lá, vendo as coisas acontecerem entre carros e passantes. O que importa aqui é mostrar o caminho percorrido como parte de um ato criativo integral.

10556333_617302958378016_1914695660325031184_nImagine que há 4.500 anos os faraós egípcios cogitassem de como iríamos nós, aqui no século XXI, compreender e tratar as pirâmides que estavam construindo. Agora coloque essa suposição para um futuro 22 vezes mais distante. Este é o assunto de INTO ETERNITY, um belo e intrigante documentário do dinamarquês Michael Madsen (não confundir com o ator homônimo). Ele trata da construção de um depósito de lixo nuclear na Finlândia, prevista para ser concluída no ano de 2100. Onkalo – este é o seu nome – ficará situado no fundo de um túnel de 500 metros de profundidade e 5 km de comprimento, escavado em rocha sólida. Espera-se que seja capaz de garantir por 100 mil anos a inviolabilidade do material depositado. Se tudo vai dar certo é algo que nem os cientistas envolvidos se arriscam a prever, uma vez que ninguém sabe como o mundo estará daqui a mil séculos. Como alertar as futuras gerações sobre os riscos de se abrir aquela caixa de pandora? Ou será melhor estimular o esquecimento definitivo sobre Onkalo? INTO ETERNITY é um filme sobre as incertezas da Ciência. Os especialistas aparecem mais absortos em dúvidas do que expondo certezas como é de praxe. Madsen constrói seu ensaio como uma carta a um hipotético espectador num futuro longínquo, mesmo sabendo que seu filme vai durar somente uma pequena fração daquele tempo. O doc tem tonalidades herzoguianas (o tema incomensurável, as considerações em primeira pessoa, o ritmo meditativo) e também kubrickianas (a filmagem do túnel e de outros depósitos de resíduos nucleares evoca a ficção científica e sugeriria um título como “2010, uma odisseia debaixo da terra”). Eu tinha gostado muito do episódio de Madsen sobre um presídio norueguês em “Catedrais da Cultura”. Com esse filme viro seu fã e faço coro a João Moreira Salles, que o incluiu entre seus faróis mais recentes.

LSDM_vue_haut-1386Taí um filme que São Paulo – e por que não o Rio também? – está precisando ver: A SEDE DO MUNDO (La Soif du Monde), de Yann Arthus-Bertrand (2012). O Brasil só aparece rapidamente numa imagem imponente da Rocinha, mas quem sabe ocupe mais espaço numa próxima reedição desse dossiê sobre os problemas de abastecimento de água no planeta. Arthus-Bertrand é um caçador de imagens da estirpe de Sebastião Salgado, com a particularidade de fotografar e filmar tudo do alto. Assim, em tomadas mesmerizantes sobre pântanos e megafavelas da África, rios e barragens da Ásia, cidades dos EUA e da Europa, somos levados a conhecer os grandes flagelos de saneamento e ressecamento da terra, bem como alguns personagens que estão trazendo soluções engenhosas para essas questões. A narração constante do próprio autor transforma o filme numa grande palestra ilustrada, na qual aprendemos, entre tantas coisas, o conceito de “água virtual”, aquela que é consumida na produção de alimentos e bens, mas não costuma ser contabilizada. Seria retórico dizer que o mundo está às portas de uma tragédia quando boa parte dele já a vive há muito tempo. A sede e as doenças por falta de higiene e consumo de água poluída assolam milhões de pessoas pelo mundo. Arthus-Bertrand precisa vir conhecer o Cantareira.

Anuncio_20_03_2013Assisti na última Mostra Ver Ciência ao documentário FRAGMENTOS DE PAIXÃO, o primeiro sobre raios no Brasil. Como indica o título, o filme quer passar uma ideia até certo ponto poética dessas descargas elétricas, principalmente com a história do rapaz que foi atingido por um raio e acabou se casando com a mulher que o socorreu. O dualismo casualidade-destino é pontuado frequentemente, o que soa bastante exótico no campo do interesse científico. A paixão do cientista Osmar Pinto Jr. pelo tema é que conduz a pesquisa aos ecos das tempestades na História do Brasil, passando pela filha do jornalista Assis Brasil, que foi fulminada por um raio nos anos 1930, e chegando a um alerta quase apocalíptico sobre os perigos cada vez maiores do fenômeno em nossos tempos de superpopulação e uso intensivo de energia. O Brasil, campeão mundial em incidência de raios, vê morrer em média 130 pessoas por ano após serem atingidas. O próprio Dr. Osmar, a maior autoridade brasileira no assunto, é quem faz as honras de apresentador e entrevistador, num estilo que lembra programas de TV como National Geographic. A direção é da sua filha, Iara Cardoso. A procura de imagens modernas e elegantese um certo clima “de ficção” se choca às vezes com o texto e a locução um pouco cafonas, além de uma estranha opção por alternar planos do narrador de perfil, olhando para o vazio. A atenção excessiva dedicada à Fortaleza de Santa Cruz (apenas porque um raio atingiu o mastro de uma bandeira) desequilibra bastante o roteiro, embora não prejudique muito sua utilidade como instrumento didático. A tentativa de dar tratamento atrativo a tema tão específico resultou num filme que procura instruir pelo pitoresco e o curioso.

Um comentário sobre “Cinco documentários

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