Histórias de viagem: Por um punhado de rúpias

Foto: GoPixPic

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No Templo Kalighat, em Calcutá, por algumas poucas moedas o turista pode desfrutar de um privilégio inusitado. Um sacerdote afasta aos gritos e empurrões a pequena multidão de fiéis que se aglomeram no recinto central. Pela fresta momentânea, o visitante ilustre pode vislumbrar a face negra da deusa Kali, os três olhos terríveis arregalados em sua direção.


Os pedintes das grandes cidades indianas, geralmente mulheres ou crianças – quando não acumuladas estas sobre aquelas – costumam praticar um piso mínimo: pedem “10 rúpias”. Se ousamos dar uma moeda menor, ficam olhando alternadamente para a mão espalmada e para o doador. A expressão de desapontamento logo dá lugar a murmúrios de desaprovação. Quando se afastam, fica a sensação de que fomos amaldiçoados para esta e as próximas encarnações.


O sentido da expressão “fila indiana” há muito deve ter se perdido na poeira dos tempos ou no lusco-fusco dos mitos. As filas na Índia moderna são aglomerados de gente ansiosa e conformada ao mesmo tempo. Há uma suave, quase inocente desonestidade na maneira como os recém-chegados tentam penetrar pelos flancos, alinhar-se lado a lado com quem já estava ali há séculos, sem qualquer pedido ou pretexto. O recato hinduísta obriga a que mulheres e homens formem filas separadas, diante de guichês diferentes. No famoso cinema Raj Mandir, de Jaipur, entrei num desses ajuntamentos em busca de ingressos. A leve pressão sobre meu corpo vinha de todos os lados. O jovem atrás de mim pousou displicentemente uma mão sobre minhas costas, como se fôssemos velhos amigos, e assim permaneceu. A boa sensação de estar em contato quase íntimo com a multidão indiana só veio depois de alguns momentos de perplexidade e reflexão. Depois reparei que todos se debruçavam sobre o “amigo” da frente. Mais tarde ainda, leria que tal prática destina-se a coibir os furadores de fila. À medida que chegava mais perto do guichê, tive que usar meus dois braços para evitar os invasores laterais. Àquela altura, eu já era um expert em fila indiana.


A mitologia erótica ainda é o principal item do comércio turístico na Índia. Quase todo vendedor de bugigangas sabe disso. Recusada a primeira oferta – seja de pulseiras, deuses em miniatura, doces ou tambores –, invariavelmente chega a vez do livrinho de Kama Sutra. Basta esperar…

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