ÉTV: Como se planta e como se colhe um poeta

Tomemos Ruy Guerra como um poeta – o que ele é em imagens, poemas e letras de música. Sobre Armando Freitas Filho, poucos desfrutam tanto quanto ele da aura de poeta em tempo integral no Brasil. Assim é que dois filmes exibidos em sessões sucessivas no É Tudo Verdade do Rio colocaram esses dois criadores de pé diante de nós. Nenhum é perfil biográfico padrão. Antes disso, mostraram como se planta e como se colhe um poeta.

O Homem que Matou John Wayne foi realizado por Diogo Oliveira e Bruno Laet, dois jovens admiradores (um deles, genro) de Ruy Guerra. Embora fale diretamente para a câmera, o poeta não aparece pronto para ser filmado, como é o caso de Armando no filme do seu amigo Walter Carvalho, Manter a Linha da Cordilheira sem o Desmaio da Planície. Diogo e Bruno se dispõem a semear as marcas da poética guerreana através de falas, mas também de sequências deslumbrantes de seus filmes e performances de um alter-ego (o ator Julio Adrião) interagindo com projeções e signos da obra de Ruy. Gente como Michel Ciment, Chico Buarque e Werner Herzog comentam seu trabalho, mas o foco principal está na formatação de um perfil artístico através da própria arte.

Para plantar o poeta Ruy Guerra, o filme esparge o fertilizante da ousadia (“É melhor ter coragem que talento”) e se recusa a mimetizar as condutas habituais do documentário de elogio. Há, sem dúvida, uma reverência diante da imagem do cineasta-poeta, visto em diversas tomadas de caráter solenizante. Mas a ênfase na palavra cortante, nas imagens deformadas e na potência política da arte dá conta, mais que tudo, da personalidade de Ruy. O fato é que, depois de vermos O Homem que Matou John Wayne, saímos mais convictos do grande poeta que ele é.

Bem mais frágil fisicamente, mas não menos aguçado ao empunhar a poesia, o gago e hipocondríaco Armando Freitas Filho recebeu Walter Carvalho em sua casa da Urca – e também num hospital abandonado da Av. Presidente Vargas – para mostrar como vive um poeta. Se Bandeira aparecia modesto e retraído no clássico O Poeta do Castelo, Armando aqui deixa-se filmar praticamente sem censura, falando sobre namoros de juventude, suas referências na poesia brasileira e seu método de criação, além de fazer belíssimas digressões sobre o ofício dos poetas (“É preciso dar pernas ao poema, que nasce com muita cabeça e muito tórax”).

Armando fala poeticamente o tempo todo, mesmo quando está somente conversando. Daí Walter Carvalho concentrar seu trabalho em simplesmente ouvi-lo, colher daquele pomar farto de frases concisas, redondas e ásperas. O filme promove também um encontro de Armando com um de seus ídolos, Ferreira Gullar, e algumas performances sobre o caráter sempre inalcançável da complexidade poética. A última parte do filme, a meu ver, se enfraquece quando deixa de lado a colheita do poeta para amealhar uma faceta mais emocional de Armando. As lembranças dolorosas do suicídio de Ana Cristina César e as alusões a casamentos e família destoam num filme que, até então, não se pretendia biográfico. Isso, porém, não retira o prazer dessa convivência tão próxima com o “poeta a pé”.

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