Sátira e milagre

Para dias amargos, o cinema pode ter doces remédios. Não há entretenimento melhor em cartaz do que AVE, CÉSAR!, mais uma joia de sagacidade cômica dos Irmãos Coen. Se “Barton Fink” via Hollywood pelos olhos de Kafka, AVE, CÉSAR! a vê pela ótica de Woody Allen ou Mel Brooks. Em torno das atividades de um estúdio dos anos 1950, entre filmagens complicadas e atores em apuros, o filme se centra num gerente de produção que tem por tarefa descascar pepinos, um homem cheio de fé em Deus e no modelo de cinema hollywoodiano. A questão da fé e as paranoias comunistas e homofóbicas daquele período estão no pano de fundo de boa parte das situações.

Os diversos subplots conduzem o filme para vários gêneros do cinema da época: o western, os musicais, os filmes bíblicos e os metafilmes como “Cantando na Chuva”, tudo filmado com um esperto distanciamento que evidencia a canastrice por trás da direção de arte. São muitas as referências cruzadas a figuras de Hollywood, como o próprio gerente Eddie Mannix (da MGM) e a atriz latina Carlotta Valdez, uma Carmem Miranda com o nome da personagem de “Um Corpo que Cai”. O elenco multiestelar também entra na roda da autosatirização. Exemplos disso são George Clooney como um superastro fajuta que se deixa influenciar pela doutrinação de um grupo de comunistas e Tilda Swinton brincando com seu ecletismo no papel de duas irmãs gêmeas do colunismo social. Mas a comicidade irresistível do filme não depende diretamente do conhecimento dessas pistas. Os Coen são inteligentes o bastante para manter a graça do seu roteiro em paralelo às citações. Eles escrevem e filmam tão bem que a gente não tem vontade de sair do cinema para voltar para o Brasil.



A LINGUAGEM DO CORAÇÃO tinha tudo – do argumento aos figurinos – para ser uma xaropada sentimental. Não é, diga-se logo. A história original da menina surda, muda e cega Marie Heurtin, que aprendeu a lidar com o mundo pela perseverança amorosa de uma freira em fins do século XIX, começa como um encontro do “Garoto Selvagem” de Truffaut com “A Noviça Rebelde” a caminho de “O Milagre de Anne Sullivan”. Confesso que fiquei apreensivo até sentir que o tratamento dado pelo diretor Jean-Pierre Améris (“Românticos Anônimos”) era mais interessante do que um simples pastiche.

A relação entre a menina Marie e a Irmã Marguerite, da rejeição indomável à aceitação enternecedora, se sustenta na ótima performance das atrizes Ariana Rivoire e Isabelle Carré, muito embora o ritmo da progressão sugira mais o milagre súbito do que a transformação gradual. Entre as qualidades do filme está sua extrema concentração. Até em virtude do relativo isolamento no colégio, o processo de civilização de Marie atende a sua humanização individual, em lugar de ser um projeto de domesticação social. Em paralelo à descoberta da vida, Marie é levada também a compreender o sentido da morte e da perda. O filme trata as emoções de maneira sóbria e consegue tocar os corações sensíveis mais pela delicadeza do que pela dramaticidade.

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