De Mann ao Crato, uma aventura de criação

Bia Lessa e Dany Roland estreiam no Festival do Rio o seu segundo longa-metragem, Então Morri. Há quase 20 anos, eles lançaram Crede Mi, uma novidade que até hoje não recebeu o crédito devido no movimento de aproximação entre documentário e ficção no Brasil. Na época (1997), eu escrevi o seguinte artigo para um folder da distribuidora Riofilme:

DE MANN AO CRATO, UMA AVENTURA DE CRIAÇÃO 

80f82ff2e9f47ff2a048399f1ebbdc0dQuando tudo parecia indicar que a máxima cinemanovista – “uma câmera na mão, uma ideia na cabeça” – estava sepultada; quando tudo sinalizava o triunfo da técnica sobre a poesia do gesto audiovisual; quando tudo fazia crer que o sertão brasileiro era propriedade exclusiva do neo-cangaço e de fábulas sociais bem-pensantes, eis que surge de repente, pequeno e arisco como preá de trás de um mandacaru, esse objeto inesperado que é Crede Mi.

O filme de Bia Lessa é bem assim – um susto que desperta a memória de outros tempos do nosso cinema, mas com a miscigenação típica das criações pós-modernas e a atitude atrevida que caracteriza a obra (até aqui) teatral da diretora. Transpor o texto clássico e atemporal de O Eleito, de Thomas Mann, para a boca de pescadores, bordadeiras e artistas populares do Nordeste brasileiro não é a maior das ousadias de Crede Mi. O que esse filme tem de mais desafiante é a retomada de um caminho de pesquisa há muito abandonado entre nós: a fusão de documento e mito, de etnografia e poesia, de realidade e encenação.

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Para melhor compreender a posição de Crede Mi, vale a pena rememorar três momentos do cinema brasileiro moderno. Primeiro, o seminal Cinema Novo, que trouxe uma renovação temática e estilística sem precedentes. Em Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, Glauber Rocha mergulhou no sertão para extrair sua seiva mitológica. A liberdade não era apenas uma bandeira política do Cinema Novo, mas um pressuposto da própria criação artística, cujo logotipo era a câmera na mão. Mais que o manuseio de um aparelho, a “câmera na mão” era uma ideia na cabeça do cineasta: ele estava leve e livre para filmar. Era o autor em sua plenitude solitária.

Paralelamente ao Cinema Novo, um grupo de documentaristas, com os farnéis supridos pelo produtor Thomaz Farkas, embrenhou-se pelo interior do país, especialmente o Nordeste, para flagrar o modo de vida, a cultura e a espiritualidade do povo brasileiro. A “Caravana Farkas”, que durou de 1964 a meados dos anos 70, impulsionou a carreira de realizadores como Geraldo Sarno, Maurice Capovilla e Paulo Gil Soares, além de representar a primeira iniciativa sistemática de documentação do Brasil profundo.

Saltemos agora para os anos 1970, quando Orlando Senna e Jorge Bodanzky abrem uma nova frente de interação entre ficção e realidade com Iracema – Uma Transa Amazônica, Gitirana e Diamante Bruto. Nesses chamados semidocumentários, o registro de situações sociais reais e a elaboração de uma dramaturgia (frequentemente com atores semiprofissionais) se fertilizavam mutuamente, almejando a indiferenciação.

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Sem que nada tenha contribuído objetivamente para isso; sem que Bia Lessa necessariamente tenha travado contato com a maioria das obras acima citadas, Crede Mi retoma vários conceitos dessas fases cruciais do cinema brasileiro. De Glauber vêm o gosto pela ritualização, pelos mitos e a inconformidade com os padrões dominantes da “bela imagem”. A câmera na mão de Bia é uma Hi-8 caprichada, que ela sustentou nos braços franzinos sertão adentro, acompanhada de seu (então) companheiro, o ator e músico Dany Roland, que cuidava do som. E mais ninguém. A plenitude solitária só não era real porque tudo se organizou com a participação integral dos moradores de cada localidade onde a dupla desembarcava.

Os workshops eram agendados previamente pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, e Bia Lessa chegava não para enfiar Thomas Mann pela goela do povo, mas para pesquisar onde a narrativa mitológica de O Eleito se cruzava com os mitos dos sertanejos. Num movimento permanente de dar e receber, Bia e Dany ao mesmo tempo que conduziam a encenação itinerante da história do século 12 contada por Mann, documentavam os festejos religiosos e folguedos populares de cada lugar. Um pouco como na época da “Caravana Farkas”, havia uma fome de conhecer o Brasil, uma disposição para “registrar e ver depois como editar”.

É bom destacar que essa documentação não se faz num sentido social ou didático-antropológico, mas com um olhar guiado principalmente pelos aspectos místico-míticos. Bia Lessa estava interessada no sentido simbólico e estético das danças, procissões, lutas etc. Não se tratava de registrar costumes nem colher folclore, mas de evidenciar a estrutura comum dos mitos de épocas e gentes diversas. Uma das maiores vitórias dos realizadores foi terem incorporado com perfeição as cenas documentais ao enredo de O Eleito.  Mais que isso, Crede Mi resgata o valor dramático de manifestações aparentemente rotineiras como as festas de reisado, romarias, procissões, lutas de facões etc. Assim, os figurinos, coreografias, aglomerações e rituais festivos assumem, na história, o papel de casamentos, funerais, cerimônias de coroação, guerras etc.

Com esse trânsito incessante entre o real e a representação, a simbologia coletiva e a dramatização individual, a mitologia própria do povo e aquela emprestada da cultura clássica, Crede Mi retoma o sentido da aventura de criação, tão caro ao cinema brasileiro de outras épocas e hoje minimizado pela predominância de um cinema de planejamento e resultados.

O espectador é arrastado nessa aventura que  não se ordena segundo moldes convencionais, mas que nem por isso o deixa desorientado. À medida que evolui a trama folhetinesca de O Eleito e a caravana mínima de Bia Lessa avança de cidade a cidade, os cenários e o elenco vão mudando sem que nunca se perca o fio da meada. Basta seguir a trajetória das duas coroas – de flores para a mulher, de latão para o homem – e deixar-se levar por uma narrativa típica de um cinema de poesia, que ora parece evocar o Pasolini de Medeia, ora o Orson Welles de É Tudo Verdade. Isso, naturalmente, com a plasticidade lowtech do vídeo Hi-8 ampliado para cinema, o que confere à imagem uma platitude e uma opacidade que são ao mesmo tempo uma deficiência e um valor estético próprio. A tendência à absorção da imagem eletrônica pelo cinema passa também por esses estudos de transferência, como já havia anunciado Antonioni, há 17 anos, em O Mistério de Oberwald.

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Na carreira de Bia Lessa, Crede Mi inaugura a aproximação com o teatro popular de uma maneira já bastante sofisticada. O filme reflete um trabalho com a maneira de o povo absorver, processar e narrar histórias. O resultado é uma alucinante interpenetração cultural, como numa canção onde a letra viesse da alta cultura europeia e a música, das manifestações do sertão brasileiro. O texto de Mann, acrescido de pequenos “cacos”, é submetido às características vocais e à interpretação rústica de “atores” improvisados, entre os quais há os tímidos, os expansivos, os espontâneos e os canastrões deliciosos. A atuação é para todos uma experiência lúdica, mesmo para aqueles que parecem levar tremendamente a sério seu ofício diante da câmera. A musicalidade nordestina transforma o texto “nobre” de Mann em cordel declamado ou em conversa de pé de fogão. A intimidade do povo sertanejo com os mitos e as divindades é coisa que Bia Lessa, encantada, tratou de transmitir no filme.

Submeter clássicos da literatura universal a um tratamento brasileiro não é novidade na obra de Bia Lessa. Assim foi com as montagens teatrais de Os Possessos, de Dostoievski, Orlando, de Virginia Woolf, Viagem ao Centro da Terra, de Jules Verne, e O Homem sem Qualidades, de Robert Musil. Esses espetáculos eram releituras das obras originais com um misto de admiração e irreverência muito peculiar. Dos seus “encontros” com grandes autores Bia retira farândulas teatrais cheias de humor, surpresa e risco cênico, onde acaba ressaltado o próprio ato de encenar. Bia Lessa encena não propriamente a obra, mas o seu olhar sobre a obra. Um olhar que investiga, se apossa e não teme consequências.

Crede Mi é um passo além-fronteira que sugere novos horizontes na inquietação da autora Bia Lessa. Agora também autora de vídeo, quase-cinema, quase-teatro, um pouco de tudo. Um objeto estranho que dialoga com a história do audiovisual brasileiro e mexe com a estratificação das paisagens culturais. Por tudo isso, bem-vinda seja!

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