Saudades do Brasil

Nos idos de 1993, o Centro Cultural Banco do Brasil, através da Fundação Banco do Brasil, patrocinou a realização de um vídeo memorável. TRÊS ANTONIOS & UM JOBIM reunia quatro Antonios famosos: Houaiss, cuja famosa macarronada foi servida na ocasião, Candido, Callado e Jobim. As conversas, estimuladas por Zuenir Ventura, foram tão inspiradas quanto pode sugerir um encontro daquele naipe. Bebeto Abrantes, autor da ideia, e Dodô Brandão, diretor, lograram estabelecer um clima de informalidade e inteligência diante da câmera de José Tadeu Ribeiro.

Na época eu coordenava a área de cinema do CCBB e me lembro de que o vídeo, de 50 minutos, era um orgulho da casa. Foi exibido em nossas salas, passou na televisão e virou livro. Mais de 20 anos depois, Dodô retomou o material para fazer um longa-metragem, que estreou semana passada no REcine. Três dos quatro Antonios já faleceram, restando somente o Candido. O novo filme tem um prólogo explicativo de Zuenir e pequenos acréscimos de material que afiam ainda mais o gume das conversas. De resto, é um sarau delicioso de humor, generosidade intelectual, sabedoria política, amor pelo país e gosto pelas palavras. Tudo o que, lamentavelmente, falta ao Brasil de hoje. Nos dias que correm, ouvi-los falar sobre a língua, a história e os costumes brasileiros, mulheres, comida e os escritores e artistas que eles admiravam nos deixa com um misto de vergonha e saudade de um Brasil que vai tendo cada vez menos pensadores grandiosos como eles.

O sarau se estende pelo Museu da Chácara do Céu, o Jardim Botânico, o restaurante Plataforma (cais de Jobim), além de depoimentos isolados em locais diversos. Na edição, os temas se organizam e se contraponteiam com efeitos distintos. São enfatizadas ora as similaridades de pensamento entre eles, ora a diversidade de posturas diante da vida e do meio cultural. Cada um tem a oportunidade de contar um pouco de suas origens e formação, do seu ofício, de suas viagens, do seu credo político. A sombra do chamado fim das utopias se estendia sobre eles e os deixava um tanto desnorteados. Cada um a seu modo, eles cultivavam – e Antonio Candido ainda cultiva – a esperança num Brasil mais justo, gentil e autosustentável. Felizmente talvez, três deles não ficaram para ver o desencanto de hoje e perceber que sua geração não foi substituída por outra com estatura sequer aproximada.

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