Antonio Callado em viva voz

O filme passa dias 24 e 25/10 e 1/11 na Mostra Internacional de Cinema de SP.

CALLADO começa com Antonio Callado sendo preso em 1965 pelo protesto que ficaria conhecido como “Os Oito do Glória”. Essa opção narrativa não diz apenas da diretora Emilia Silveira, uma devotada cultora da memória dos presos políticos em filmes como Setenta e Galeria F. Diz mais ainda do próprio Callado, o típico intelectual engajado que, mesmo sem nunca ter entrado para o Partido Comunista, combateu a ditadura em corpo e escrita.

Não é pouca coisa o que Emilia pretende contar no documentário. Callado, cujo centenário de nascimento se comemora este ano, teve uma vida movimentada, com muitas viagens, duas famílias, uma tragédia familiar, trabalhos em rádio e jornais, e livros que se tornaram clássicos instantâneos do romance político brasileiro. O filme procura enfrentar o desafio munido de muita síntese nos seus parcos 73 minutos.

A voz de Callado, seja ouvida ou transcrita na tela, é dominante. As primeiras transmissões da BBC para o Brasil, durante a II Guerra Mundial, já contavam com suas crônicas faladas. Nos textos para o Correio da Manhã, Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo imperava a consciência crítica do homem de mente progressista e queda para o socialismo, das quais é prova sua admiração pelas experiências de Cuba e do Vietnã do Norte.

Com a voz de Callado convivem também as de parentes, colegas de redação e estudiosos de sua obra, todos presentes apenas em áudio. Isso possibilita uma maior concentração das imagens no biografado, sendo a única exceção uma reunião de escritores e pesquisadores que se debruçaram sobre a obra-prima Quarup.

A grande quantidade de informações e materiais de arquivo, sem auxílio de nenhum tipo de narração organizativa, exige do espectador um esforço especial de atenção para não se perder nos aspectos biográficos e profissionais de Callado. E olha que sua produção teatral nem chegou a ser abordada. De minha parte, custei a compreender o critério de escolha de certos trechos de livros e reportagens destacados em voz e letreiros.

Já o tratamento visual acerta em cheio ao valorizar os textos sobrepostos às imagens e o grafismo das retículas. Callado era um homem de letras e de jornal impresso, o que impregna a matéria do filme. A diversidade e franqueza dos depoimentos complementam o perfil de um homem que, para vergonha de tantos jornalistas de hoje, nunca se calou.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s