Vincent e Yvone, objetos de investigação

A animação COM AMOR, VAN GOGH e o drama YVONE KANE colocam personagens jovens investigando a morte de figuras míticas

COM AMOR, VAN GOGH pretende dar movimento a alguns quadros antológicos do pintor holandês e ao mesmo tempo gerir uma história através de sua estética. O resultado é visualmente deslumbrante, mas levanta uma questão importante sobre a diferença entre pintura e cinema. Enquanto um quadro de Van Gogh, em sua imobilidade, apenas sugere um campo vasto de ações, contextos e subtextos, o cinema se sente obrigado a explicitá-los em som e movimento. É aí que a animação de Dorota Kobiela e Hugh Welchman perde força.

Na história de fundo policial, o filho do chefe dos correios procura um destinatário para a última carta de Vincent ao irmão Theo, após a morte de ambos, e resolve investigar as circunstâncias da morte do pintor. O que temos, então, é uma série de entrevistas com pessoas ligadas aos últimos tempos de Vincent. A estrutura das cenas se repete tediosamente, com diálogos e narração servindo apenas à transmissão de informações biográficas sobre os irmãos, o bullying sofrido pelo artista e a relação dele com personagens como o célebre Dr. Gachet. Impera o didatismo, enquanto a investigação empreendida por Armand Roulin (um dos muitos amigos pintados por Van Gogh) soa artificial perante uma verdade conhecida e sobre a qual não parece pairar dúvidas.

No fundo, COM AMOR, VAN GOGH é um filme sem sentido. Apesar disso, não pode ser descartado por conta da beleza e da perícia de sua confecção. No âmbito da animação polonesa, uma das melhores e mais influentes do mundo, esse trabalho reúne a técnica moderna da rotoscopia (atores fazem as cenas e depois tudo é recoberto por desenho) e o tratamento tradicional da pintura à mão. O uso do preto e branco nos flashbacks me pareceu esquemático e destituído de justificativa pictórica. Já o sopro de vida dado a imagens do nosso acervo afetivo é um regalo sem preço.



São quatro histórias correndo paralelas em YVONE KANE. Há o assunto-título em torno de uma jornalista portuguesa (Beatriz Batarda) que volta à Moçambique natal para investigar as circunstâncias da morte da líder revolucionária Yvone Kane (figura ficcional), assassinada em Londres. Há também o tema da iminência da morte, personificado pela mãe da jornalista, uma médica (Irene Ravache) que foi amiga de Yvone e agora está desenganada com uma doença grave. Há ainda um subplot sobre estupros infantis e outro sobre um hotel frequentado por estrangeiros e supostamente por almas penadas da época da guerra civil. Isto sem contar os enigmas que cercam mãe e filha, aprofundando o estado de depressão das duas.

Se há um denominador comum a essas linhas narrativas é a transformação da História em ruínas, esquecimento e fantasmagorias. Os ecos da guerra de independência de Moçambique e dos tempos de radicalismo comunista se espalham não só por muros desenhados, slogans revolucionários cobertos de ferrugem e velhos cartazes da Aeroflot, mas principalmente por uma sensação de alienação perceptível entre jovens e adultos, nativos e expatriados. Nesse quadro, descobrir como morreu Yvone Kane torna-se símbolo de um resgate maior, o da verdade histórica para além dos relatos oficiais.

Essa última frase soa pomposa demais para um filme que trabalha em tom menor. Margarida Cardoso tece seus personagens com linhas tênues, a ponto de quase se perder seus contornos e pouco se identificar suas razões. É frequente a impressão de que personagens e módulos de ação se extraviam e têm seu interesse esvaziado.

O protagonismo a cargo de portugueses tampouco contribui para a superação de um vício colonial. Yvone Kane, a heroína moçambicana, acaba se revelando um mero pretexto para as agonias da consciência europeia face às feridas de um passado que é também seu.

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