O pai da nossa luz

Abaixo, o texto do meu prefácio ao livro “O Criador de Imagens – A Luz Brasileira de Mario Carneiro”, de Miguel Freire. Depois de um lançamento no Rio, o livro será autografado pelo autor na próxima quarta-feira, 12/9, às 19h, na Blooks de Niterói e no domingo, 16/9, no Festival de Brasília.

Tal como o conceito de identidade brasileira, motivo de muita polêmica no meio cinematográfico e acadêmico, a ideia de uma luz brasileira no cinema também é objeto de controvérsia. Discute-se não apenas o que constituiria a brasilidade dessa luz, como igualmente o momento histórico em que teria se dado essa epifania de caráter técnico, artístico e antropológico. Edgar Brazil em Limite? Rucker Vieira em Aruanda? Luiz Carlos Barreto e José Rosa em Vidas Secas? Seria possível apontar um pai fotográfico da tal luz brasileira?

Sem desmerecer antecessores nem negar que essa conquista foi gradual e alheia ao gesto fundador de um único indivíduo, Miguel Freire armou-se de estudos e coragem para atribuir um mérito decisivo a Mario Carneiro. E localizou essa façanha especificamente na realização do longa-metragem Porto das Caixas, dirigido por Paulo César Saraceni em 1962.

O apaixonado interesse de Miguel pelo trabalho de Mario já se manifestou de várias maneiras. O surgimento deste livro foi precedido por certa circulação do texto em forma de dissertação e pela realização do documentário Criador de Imagens, definido no subtítulo como um “ensaio sobre o olhar de Mario Carneiro”. As relações pessoais e profissionais entre os dois foram de longa data. De seu aluno de fotografia na UFF Miguel passou a assistente de Mario em Sagarana: o Duelo, de Paulo Thiago. Trabalharam juntos em diversos projetos, sendo que Mario fotografou e editou o curta Guerra Santa na Avenida, de Miguel.

Quando resolveu filmar os trabalhos de restauração, pelo Museu Nacional de Belas Artes,  dos quadros Batalha dos Guararapes, de Victor Meirelles, e A Batalha do Avaí, de Pedro Américo, para o documentário Grandes Batalhas, Miguel voltou a convidar Mario para dirigir a fotografia. Assim fazendo, seguia o caminho preferido por tantos cineastas brasileiros quando pensavam em articular cinema e artes plásticas: chamar o Mario.

O profundo conhecimento de Mario Carneiro no que dizia respeito a luz, cor, volumes e texturas, nutrido na gravura e na pintura, fez dele o interlocutor ideal de diretores de várias gerações, de Saraceni e Joaquim Pedro de Andrade a Joel Pizzini e Régis Faria. Embora tenha mantido os pincéis ativos até próximo do fim, foi no audiovisual que ele encontrou sua tela mais receptiva e difundida.

Não cabe aqui me estender sobre o conjunto da obra de Mario, uma vez que Miguel Freire se atém em seu recorte a Porto das Caixas. O que importa ressaltar desde já é como a essa escolha verticalizada em um só filme corresponde um exame horizontalizado de todos os elementos que podem convergir para a análise de um trabalho de direção de fotografia.

Não é de pequena monta a contribuição prestada por Miguel com esse livro. Como ele mesmo afirma logo no início, a maioria das análises de filmes do Cinema Novo resume-se a observações ralas e pontuais no que tange à construção fotográfica da imagem. Existe uma dívida imensa para com artistas como Rucker Vieira, Valdemar Lima, Dib Lutfi, José Rosa, Affonso Beato e tantos outros que ajudaram a construir a imagem do cinema brasileiro moderno.

Miguel trilhou caminho nesse relativo deserto em busca de definir o que seria uma luz brasileira: um tratamento que explorasse a luminosidade tropical, os altos contrastes produzidos pelo sol intenso, com um desenho de luz próprio e diferenciado dos padrões de abrandamento e equilíbrio importados do cinema hegemônico. Porto das Caixas, para ele, foi o protótipo mais bem acabado dessa nova configuração lumínica.

Para chegar ao cerne do pensamento fotográfico de Mario Carneiro naquele seu primeiro longa – encarado como um aprendizado, mas cujos aparentes erros em grande parte virariam acertos –, Miguel passa por diversas instâncias da realização. Aborda as condições de produção do Cinema Novo, que ao levar as filmagens para céu aberto traziam novas condicionantes para a fotografia. Recorrendo a importantes fontes teóricas, esquadrinha o tema da morte e como ele reverbera nas opções estéticas adotadas por Saraceni e Carneiro. Em iniciativa de relevância inédita, coteja o argumento original de Lúcio Cardoso com a versão filmada, o que permite observar as indicações visuais já apontadas pelo escritor e as intervenções operadas pelo diretor e pelo fotógrafo. O argumento está reproduzido em facsímile nas últimas páginas do livro.

Ao pormenorizar a análise de algumas sequências, plano a plano, com a ajuda de gráficos e reprodução de fotogramas, Miguel nos faz “ver” composição de luz, movimentos de câmera e metaforizações visuais de ideias e sentimentos envolvidos nas cenas. O predomínio da relação claro-escuro no rastro de Goeldi, os estouros de luz e a ambientação rústica e lúgubre de Porto das Caixas favorecem, segundo o autor, o estabelecimento de novos parâmetros para a fotografia no cinema brasileiro.

Estudo erudito e ao mesmo tempo técnico, ainda com vernizes de dicção poética, O Criador de Imagens abre seu foco para diversos teóricos e historiadores a respeito de cinema, fotografia e narratividade. Incorpora a seu tecido informações colhidas em entrevistas realizadas pelo autor em meados da década de 2000. Prova da limpidez e disciplina intelectual de Miguel Freire é a maneira como o texto empreende seus voos teóricos sem nunca perder de vista a materialidade do filme e suas circunstâncias particulares.

Eis um livro que convida irresistivelmente ao seu extracampo. Instiga o leitor não só a ver ou rever um dos clássicos do cinema brasileiro, como a conhecer melhor a integridade do legado de seu diretor de fotografia. Depois de explorar todos os matizes e possibilidades do preto-e-branco, Mario Carneiro entraria na esfera da cor e ali reforçaria sua reputação como pintor da luz brasileira no cinema. No filme colorido, porém, Mario trazia uma preocupação diferente, que era domar os excessos da luz tropical e evitar a carnavalização da paleta.

Gradativamente, o artista da luz se consolidou como uma referência incontornável também na documentação de artistas brasileiros. Seus filmes e vídeos sobre pintores, escultores e arquitetos são um tesouro à parte em sua filmografia. Percurso este que tem sua gênese muito bem contada neste livro em que um mestre fala de outro.

4 comentários sobre “O pai da nossa luz

  1. Fantástica a ideia da “carnavalização “ das cores em filme colorido. Achar a luz brasileira num país tropical é obra de muito trabalho, experiência e cultura. Preciso rever Porto das Caixas.
    Não tenho mais dúvida da importância da fotografia.

    Os filmes “ar condicionado” Brasileiros são exatamente aqueles que estão em outro planeta, onde o sol não faz suar.
    Por isso acho Vidas Secas fundamental em termos de fotografia .

  2. Mário Carneiro, um gentil homem., fala mansa e amigo sincero. Quero comprar o livro. Terá distribuição no país? Oxalá!

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