A água tem dono?

IDADE DA ÁGUA, de Orlando Senna, é uma das principais atrações da 8ª Mostra Ecofalante de Cinema

A 8ª Mostra Ecofalante de Cinema começa nesta quinta-feira (30/5) em São Paulo, com entrada franca para 132 filmes de 32 países. A programação este ano traz um ciclo sobre as utopias e o cinema militante pós-68 (com obras assinadas por grandes diretores), uma homenagem ao brasileiro Silvio Tendler (première do seu novo filme Fio da Meada), Panorama Internacional Contemporâneo, com diversos longas premiados em festivais do mundo inteiro, Sessão Infantil e o 2º Seminário de Cinema e Educação, entre outros destaques. Leia mais abaixo um texto de apresentação da curadoria. Veja aqui o site da mostra.

Uma das principais atrações da mostra é o novo filme de Orlando Senna, o primeiro realizado por ele desde seu episódio para o longa latino-americano Enredando Sombras, em 1998. IDADE DA ÁGUA traz de volta o cineasta profundamente identificado com a latinidade e as questões sociais. Neste caso, a competição internacional pela água e pela posse e exploração da Amazônia.

O documentário parece se pautar por algumas perguntas: “A água tem dono?”, “A Amazônia está à venda?”, “Será que chegaremos ao ponto de ter uma guerra da água a nível mundial?”.

Depois de uma abertura épica sobre os mananciais, ao som do Uirapuru de Villa-Lobos, e de uma introdução um tanto didática baseada em narração off, Orlando penetra o âmago do assunto: a Amazônia, colocando em discussão o seu epíteto clichê de “pulmão do mundo”. Ao vê-la como uma simples floresta, reserva a ser disputada e explorada, mais do que preservada, o mundo com frequência se esquece de que há milhões de seres humanos vivendo ali. Orlando foi ouvir essa gente: índios, comerciantes, feirantes, militares, artistas.

Dira Paes, Gabi Amaranto, Jorane Castro, Jorge Bodanzky e Edna de Cássia (a jovem que em 1974 viveu o papel-título de Iracema, uma Transa Amazônica, de Bodanzky e Senna) têm falas vigorosas sobre as potencialidades naturais e culturais da Amazônia, assim como os males que vêm causando sua cada vez menos lenta destruição. Em dado momento, o filme faz um assustador inventário das tentativas de internacionalização, apropriação, intervenção e/ou privatização da região, incluindo os planos de Hitler.

IDADE DA ÁGUA faz menção longínqua ao glauberiano A Idade da Terra por também mirar uma cosmogonia em grande escala. O roteiro às vezes perde a coesão ao enveredar por aspectos mais prosaicos, como o tecnobrega ou as imagens de prostitutas de Belém. Mas isso não desmerece a força do filme por conta do conjunto de imagens poderosas que reúne e pelo alerta vermelho que acende em tempos de entreguismo do país – e da Amazônia especificamente – aos tubarões da ganância internacional.

Apresentação da mostra pela curadoria

A Mostra Ecofalante entra em sua 8ª edição como a maior mostra de cinema gratuita de São Paulo! São 133 filmes de todos os cantos do mundo que suscitam dilemas contemporâneos a serem enfrentados por todos nós com urgência e reflexão. Desde sua criação, em 2012, a Mostra Ecofalante já atingiu um público de quase 300 mil pessoas, e é hoje considerada o mais importante evento sul-americano audiovisual dedicado a temas socioambientais.

Panorama Histórico deste ano propõe que revisitemos um período de inflexão na história: todos os filmes são produzidos após o grande Maio de 68. Eles estão reunidos sob a curadoria “A Crise das Utopias e o Cinema Militante Pós-68”, que traz clássicos de diretores seminais do cinema mundial como Agnès Varda, Antonioni, Chris Marker e Rob Epstein, além de nomes brasileiros como Glauber Rocha e Zé Celso. Os filmes retratam temas que marcam o período, como a luta pelo fim do colonialismo, focando no movimento de descolonização africano, os movimentos contestatórios e de contracultura nos EUA e na Europa, a nova força dos movimentos negro, feminista e gay (hoje LGBTQ+) e, finalmente, os questionamentos ao redor da sociedade de consumo e em defesa do meio ambiente.

Nosso grande homenageado do ano é Silvio Tendler, realizador dos documentários que alcançaram o maior recorde de bilheterias do Brasil. O cineasta filma a história política do país e, em suas obras mais recentes, revela como a influência da política e da economia na produção de nossos alimentos tem impactos diretos na saúde de todos nós.

Os aguardados Debates da Mostra Ecofalante são organizados em torno das temáticas do Panorama Internacional Contemporâneo, que traz obras, em sua maioria, inéditas no Brasil, cuja excelência cinematográfica está comprovada por sua seleção em vitrines prestigiosas como os festivais de Cannes, Sundance, Roterdã, Locarno, Berlim, Leipzig, IDFA – Amsterdã, entre outros. Este ano, os filmes estão ordenados sob os seguintes temas: Cidades, Economia, Povos & Lugares, Recursos Naturais, Saúde, Sociobiodiversidade e Trabalho. São dois novos eixos: o conceito de Sociobiodiversidade nos lembra que, na realidade, é impossível pensar homem e natureza em separado. Reforçando essa ideia, a temática de Saúde nos mostra como o meio ambiente tem influência direta em nossos corpos e mentes.

Outra novidade desta edição é o programa Mostra Brasil Manifesto, um conjunto de filmes que constroem um retrato denso e agudo do Brasil, voltando seu olhar para questões primordiais que abarcam nossas identidades e nossa história. A seleção traz os realizadores Orlando Senna, com um documentário sobre a água, Christiane Torloni e Miguel Przewodowski, que traçam um histórico de nossa relação com a Amazônia, Regina Jehá, que resgata um artista ligado ao movimento ambientalista, André D’Elia, que nos entrega um filme essencial sobre a tragédia de Mariana e André di Mauro, que nos apresenta uma grande ode ao pai do cinema brasileiro, Humberto Mauro.

Wiñaypacha, do Peru

Na Competição Latino-Americana chama a atenção a pluralidade de olhares e estilos em documentários, animações e ficções com profundas marcas autorais que assumem posições fortes e estimulantes sobre questões socioambientais centrais de nossa sociedade. O Concurso Curta Ecofalante exibe uma seleção criteriosa de filmes de alunos de graduação, ensino médio e de cursos livres de cinema, abrangendo produções de todas as regiões do país. Ambas as competições concorrem a prêmios do Júri e de Voto do Público, entregues na cerimônia de encerramento do festival.

O programa Experiência Sensorial: Realidade Virtual aposta em novas tecnologias que ampliam a experiência cinematográfica para além dos estímulos visuais. A seleção traz dois curtas em VR que criam experiências distintas para o espectador: um chamado à ação contra o desmatamento da Amazônia e uma viagem a um mundo mágico e surpreendente. O evento traz ainda a Sessão Infantil, com curtas internacionais exibidos em grandes e importantes festivais como o Short Film Corner, do Festival de Cannes, o Festival de Animação de Annecy e o Anima Mundi. O conjunto de curtas apresenta, de maneira lúdica, questões socioambientais contemporâneas, como a geração de energia ou a vida urbana regrada pelo relógio.

A Mostra Ecofalante também promove Atividades Paralelas. O Seminário de Cinema e Educação, feito em correalização com o Sesc, propõe uma reflexão sobre o potencial pedagógico do uso do cinema pelos professores na escola. O evento conta com uma MasterClass de um dos maiores críticos e pesquisadores do cinema no Brasil, Ismail Xavier, além de palestras e diversas mesas de debates.

O festival também estará em cartaz online na plataforma Spcine Play, que permite assistir às obras em casa, em qualquer região do país. E filmes de outras edições estão sempre disponíveis para que o público possa organizar exibições ao longo do ano através do portal da VideoCamp.

Amplia o alcance deste cardápio o trabalho realizado durante todo o ano com a Mostra Escola e o Programa Ecofalante Universidades. As iniciativas levam exibições e debates para o ambiente de ensino, fomentando ainda mais a interação entre cinema e educação e a reflexão sobre temas prementes em nossa sociedade.

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