Marielle vive nelas

SEMENTES: MULHERES PRETAS NO PODER online e gratuito

Rose Cipriano

Quem mandou matar Marielle Franco? A pergunta continua sem resposta, mas a reação das mulheres pretas rapidamente se fez sentir na política brasileira. Nas eleições de 2018, 4.398 delas se candidataram a cargos legislativos, ou seja, 93% a mais que nas eleições anteriores. As cineastas Ethel Oliveira (preta) e Julia Mariano (branca) acompanharam a campanha de seis candidatas a deputada federal e estadual do Rio de Janeiro. Sementes: Mulheres Pretas no Poder é uma injeção de esperança em meio ao ataque do fascismo.

Jaqueline Gomes (professora trans, PT), Mônica Francisco (ex-assessora de Marielle e pastora evangélica, PSOL), Renata Souza (jornalista e atual candidata à prefeitura do Rio, PSOL), Rose Cipriano (professora, PSOL), Tainá de Paula (arquiteta e urbanista, PCdoB) e Talíria Petrone (professora, PSOL) tomaram a bandeira de Marielle e partiram para a caça ao eleitor em todas as áreas do Rio, Baixada, Niterói e São Gonçalo. Desde o lançamento das candidaturas até a expectativa e as emoções da contagem de votos, as guerreiras são vistas no corpo a corpo da panfletagem, em marchas, reuniões, rodas de conversa, gravações de propaganda, retoques na aparência, cenas domésticas e em atritos com uma polícia protofascista.

Renata Souza

Este é mais um título para o acervo dos documentários brasileiros sobre campanha eleitoral, onde se encontram Entreatos, Vocação do Poder, Intervalo Clandestino e os mais distantes Maranhão 66 e Pinto Vem Aí. Mas não se trata de uma campanha qualquer. Aquelas seis mulheres, cada qual em seu partido e com suas particularidades, estavam unidas por uma garra comum – a de confrontar o domínio masculino, branco, homofóbico e direitista que quase sempre prevaleceu na política brasileira mas se agravou drasticamente após o golpe de 2016.

A campanha “Ele Não” fez a liga mais forte e elevou as tensões à medida que as eleições se aproximavam e o espectro da extrema-direita se desenhava no horizonte. Passado o pleito, o filme segue com as três eleitas até as respectivas posses na Alerj e no Congresso. Num ano em que os piores instintos conquistaram cadeiras e postos de governo, as vitórias de Renata, Mônica e Talíria foram ganhos de resistência e dignidade. Era a hora de restaurar o nome de Marielle no centro do poder.

Talíria Petrone

O filme se avizinha bastante do americano Virando a Mesa do Poder, que enfocou a campanha de quatro ativistas progressistas nas eleições de 2018. Lá como aqui, o atraso prevaleceu no geral, mas as mulheres eleitas foram sementes de um processo que poderá frutificar em breve.   

Juntas, a estreante no longa-metragem Ethel Oliveira e a experiente Julia Mariano demonstram senso de oportunidade jornalística, capricho documental e qualidade técnica impecável. Sem recorrer a entrevistas nem narração, elas souberam captar a batalha pelo voto com poucos recursos e sem máquina eleitoral, a garra e a personalidade de cada candidata, assim como o valor simbólico de suas campanhas.

SEMENTES: MULHERES PRETAS pode ser visto gratuitamente a partir das 19h de 7 de setembro no site da Embaúba Filmes.

 

3 comentários sobre “Marielle vive nelas

  1. Pingback: Diversidade nas Assembleias | carmattos

  2. Ninguém pode deter o curso da História. O fascismo não sobreviverá à evolução da humanidade. O racismo, o machismo, o sexismo, a homofobia e todas as outras formas de discriminação e intolerância não resistirão ao processo natural, embora lento, do despertar da consciência humana.

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