Um pouco do Brasil de Sylvio Back

Mostra Sylvio Back no Canal Brasil

Foto: Ana Paula Amorim

Sylvio Carlos Back é um dos mais novos doutores honoris causa da Universidade Federal de Santa Catarina, estado onde nasceu. No cinema, ele é conhecido apenas como Sylvio Back, detentor de 77 prêmios nacionais e internacionais por seus 38 filmes. Cinco deles estão sendo exibidos este mês num ciclo do Canal Brasil.

Aos 83 anos, Back não pensa nem de longe em parar de criar. “Ler um poema por dia, velhice adia”, garantiu ao blog. “Quando a peste negra, o coronavírus de então, corria solta por Londres, Shakespeare escrevia seus maravilhosos poemas eróticos e, de quebra, a peça King Lear“. Back segue o exemplo. No prelo da editora da UFSC ele tem Silenciário, reunião de sua obra poética (a poesia erótica já se encontra compilada em Quermesse, editado pela Topbooks). Silenciário reúne cinco livros de poesia escritos desde 1986 e um inédito com 56 poemas, intitulado A Maior Diversão. Ainda nessa seara, acaba de concluir o primeiro poema longo, Curitiba Merencória, que talvez vire livro ainda este ano.

No audiovisual, tem dois projetos em andamento. Um deles, intitulado Véu de Curityba, é uma minissérie que propõe um diálogo entre passado e presente da capital curitibana, cidade muito filmada ao longo de todo o século XX. Curitiba já estrelava seu primeiro curta, As Moradas, de 1964. No novo longa, ele vai recuperar imagens históricas e outras inéditas filmadas por ele com fotografia do mestre Mário Carneiro.

Já em A História Teimosa, Back pretende reunir historiadores, críticos e artistas em torno da seguinte questão: é possível fazer um filme hoje sobre a Guerra do Paraguai? O conflito, encerrado há exatos 150 anos, já esteve sob a mira do documentarista no polemista Guerra do Brasil, lançado em 1987 e incluído na mostra televisiva.

A mostra do Canal Brasil

“Revolução de 30”

O ciclo começou na quarta-feira passada, com a exibição do clássico Lance Maior (1968), resenhado por mim aqui. Na próxima quarta (9/9), sempre às 13h40, o canal vai mostrar Revolução de 30 (1980). Nesse laborioso trabalho de compilação, o diretor se dispôs não a contar didaticamente o que foram a década de 1920 e o movimento que em 1930 consolidaria o capitalismo à brasileira. O filme se liga primordialmente aos ícones preservados, aos sons gravados, à memória da época. Back conservou as hesitações, mistificações e delírios de então, deixando que a defasagem temporal e a perspicácia do espectador revelassem o sentido de tudo.

Em Revolução de 30, os depoimentos de Boris Fausto, Paulo Sérgio Pinheiro e Edgard Carone são interpretações brilhantes e às vezes contrastantes. Os sons da época foram em grande medida recolhidos dos arquivos e anotações do pesquisador Jairo Severiano, um dos maiores conhecedores da história da música popular brasileira. Back usa o material sonoro com raro senso de oportunidade, retirando efeitos inesperados, espirituosos ou irônicos. As imagens, por sua vez, tanto documentais quanto ficcionais, prendem o espectador numa pura rede de fascínio.

No dia 16/9, será a vez de Guerra do Brasil, cujo grande mérito é organizar e evidenciar um amplo questionamento dos mitos e fraudes que fazem a história oficial brasileira da Guerra do Paraguai. Durante seis anos, o conflito meteu 36 mil homens num disparatado ânimo expansionista.

Nesse filme, como de praxe, Back é inquisitivo e pouco conciliador. Quis evidenciar fatos escamoteados na história, como a “convocação” de escravos, bêbados e vagabundos para as fileiras dos chamados “voluntários da pátria”; o roubo de gado e desvio de verbas pelos militares brasileiros; ou ainda os saques e massacres promovidos pelos soldados da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) no Paraguai ocupado. Uma série de depoimentos de historiadores e militares dos quatro países dá as diversas versões dos acontecimentos, ficando para o público a incumbência de tirar a sua verdade, tão concreta quanto possível.

Rudiger Vögler e Ruth Rieser em “Lost Zweig”

O Universo Graciliano passa no Canal Brasil no dia 23/9. Sobre esse filme, um retrato à altura da controvertida personalidade de Graciliano Ramos, eu escrevi esta resenha. O ciclo se encerra no dia 30/9 com o docudrama Lost Zweig (minha resenha aqui). Mais que um exercício de cinebiografia de Stefan Zweig no Brasil, é a brilhante sustentação dramatizada de uma série de hipóteses.

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