Os olhos tristes dos tubarões

AOS PEDAÇOS no Festival de Gramado

O novo filme de Ruy Guerra, que estreia hoje no Festival de Gramado, seria melhor analisado por um psicanalista. Atrevo-me a comentá-lo somente até certo ponto. Para começar, é possível que tudo se passe na cabeça de um homem (Emilio de Mello), dentro da qual tudo está partido em duplas. Ele vive entre duas mulheres de nomes palindrômicos, Ana (Simone Spoladore) e Anna (Christiana Ubach), que para se confundirem basta uma piscadela, um corte, um movimento do foco, uma virada da página de um diário.

Não à toa ele se chama Eurico, com esse “Eu” rico em vozes interiores que se digladiam no inconsciente. Uma dessas vozes vem de um pastor evangélico que o aconselha a aceitar Jesus. A esquizofrenia de Eurico se agrava quando ele recebe um bilhete assinado por A., dizendo que vai matá-lo. Será de uma das mulheres? De qual delas? Terá mesmo existido essa ameaça?

Aqui estamos em terreno característico de Ruy Guerra: instável, caleidoscópico, repleto de espelhos. Ruy criou a história de Aos Pedaços originalmente para um romance, mas decidiu transformá-la em roteiro com a parceria de sua ex-mulher, Luciana Mazzotti. O resultado é uma sucessão de monólogos um tanto áridos, onde Eurico e as An(n)as desfiam suas pulsões de amor e morte, seus medos e suas paixões conturbadas.

A bigamia parece fonte de prazer e de tormento para um homem consumido por sua consciência. A incompletude essencial de Eurico se reflete na duplicação das mulheres e nos embates com encarnações da sua psique – incluindo aí uma lagosta. As referências a animais (cite-se ainda cobras, peixes, cavalo, tubarões) é mais um signo psicanalítico a ser desvendado por quem disso entende.

O espelhamento e a duplicidade se reproduzem cenicamente na fotografia monocromática de Pablo Baião: simetrias, silhuetas contra fundos claros, atores com uma banda apenas iluminada. Persona, de Bergman, e o expressionismo alemão vêm à lembrança com frequência. A luz constitui o principal elemento cenográfico, recortando espaços e definindo tanto as dicotomias dos interiores quanto a claridade ostensiva dos exteriores (a praia de Ana, o deserto/dunas de Anna). A teatralidade enfática se assemelha à de Quase Memória.

Além das falas dos três atores, o que se ouve é uma breve narração pela voz cavernosa de Arnaldo Antunes e as inserções discretas, mas inquietantes da trilha sonora a cargo da banda de rock expressionista norte-americana Fracktura. Vale citar, ainda, os rangidos que acompanham alguns movimentos de câmera, mais uma excentricidade com que Ruy Guerra desenha sua assinatura nesse filme em que as áreas de obscuridade não se limitam ao espaço cênico.

Um comentário sobre “Os olhos tristes dos tubarões

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