É Tudo Verdade: Dois Tempos

Exibições gratuitas: Plataforma Looke, 12/04 às 21h00 e 13/04 às 15h00

por Paulo Lima

Artistas peregrinos

Quando Yamandu Costa era criança, sua família abrigou durante algum tempo o violonista argentino Lucio Yanel, que viera tentar a vida no Brasil, após a Guerra das Malvinas. Com o tempo, o músico viria a se tornar uma grande influência para o futuro violonista gaúcho. Trinta e cinco anos depois, o mestre e seu discípulo famoso voltarão a se encontrar e realizar uma viagem que conduz Yanel de volta ao seu passado argentino.

O registro dessa viagem, mesclando memória, música e amizade, é o tema do documentário Dois Tempos, dirigido por Pablo Francischelli. Yamandu e Yanel percorrem o trajeto de Porto Alegre a Corrientes, na Argentina, num motorhome guiado pelo brasileiro. O destino é um festival de música, onde os dois violonistas se apresentarão como convidados.

O road movie mostra os dois “artistas peregrinos” (na expressão de Yamandu) entre prosas e histórias regadas a goles de chimarrão, enquanto avançam estrada afora. O jeito mais brincalhão do brasileiro contrasta com o tom mais sisudo de Yanel, acentuado por seu vasto bigode, proporcionando um divertido efeito dramatúrgico. Aqui e acolá se interpõe o silêncio, logo quebrado por provocações de ambas as partes, às vezes de natureza filosófica.

Durante uma parada noturna para o jantar, somos agraciados com um dos duetos executados pelos músicos ao longo do filme, tendo os sapos e as estrelas como plateia. O acaso, na forma do pitoresco, surge no caminho. Num desses momentos, próximo da fronteira, Yamandu descansa numa praça enquanto toca seu violão. Ele é então abordado por um sujeito que nunca ouviu falar do artista.

O filme ganha outro ritmo e uma nova dimensão quando a dupla alcança o lado argentino e se apresenta no festival. Ali, as reminiscências de Yanel se intensificam no encontro com antigos amigos que ele não via há muito tempo. O velho músico ganha mais protagonismo no reencontro poético e sentimental com seu passado. Numa das cenas mais tocantes do filme, nós o vemos visitar a pequena localidade em que passou a infância, 64 anos depois.

Ao som de muito chamamé – o ritmo folclórico argentino -, de boas conversas, muitas risadas e demonstrações de virtuosismo dos dois grandes músicos, o documentário de Pablo Francischelli oferece um brinde à arte e à amizade.

Paulo Lima

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