É Tudo Verdade: 9 Dias em Raqqa

Exibição gratuita: Plataforma Looke, 12/04 às 19h00 durante 24 horas

Quando se pensa nas guerras do Oriente Médio, a imagem comum das mulheres é no papel de vítimas, estupradas ou chorando seus mortos. O panteão dos heróis e dos mártires é normalmente ocupado por homens. O documentário 9 Dias em Raqqa (9 Jours à Raqqa), do francês Xavier de Lauzanne, é um bom antídoto contra esse estereótipo. “Nenhuma revolução se constrói com um só sexo”, diz uma comandante da aliança curdo-árabe que, apoiada pela coalizão ocidental,  derrotou e expulsou o Estado Islâmico (EI) de sua autoproclamada capital síria, a cidade de Raqqa, no Nordeste do país.

A estrela do filme, porém, não é ela, mas a civil Leila Mustapha, uma engenheira curda e muçulmana sunita que também combateu contra o EI e foi a responsável por anunciar oficialmente a libertação da cidade. Aos 30 anos, em 2017, ela foi eleita prefeita de Raqqa, o que significava assumir a administração de uma cidade 80% destruída, sem energia elétrica, com um rastro de milhares de mortos e outros tantos refugiados ou deslocados de suas origens. Desde então, Leila vem reconstruindo praças, monumentos, prédios, infra-estrutura e, principalmente, estimulando a cultura, a democracia e a igualdade de gêneros.

Conhecemos Leila de carona na viagem da escritora francesa Marine de Tilly, que chega a Raqqa para colher um retrato da prefeita em nove dias. O livro saiu em 2020 com o título “A Mulher, a Vida, a Liberdade”. Acompanhamos a longa jornada de Marine através da Turquia e do Iraque até seu destino, um lugar novamente ameaçado por remanescentes do EI desde que Donald Trump retirou as tropas estadunidenses da Síria. Em caminhadas pelo centro da cidade, onde os jihadistas promoviam o terror e as execuções de “infiéis”, a prefeita voltava a temer por sua segurança: “É perigoso ficar muito tempo por aqui. Eu sei que sou vigiada por agentes do EI”.

Nas conversas com a escritora, Leila fala do misto de desespero e motivação com que encarou a hercúlea tarefa de cuidar de Raqqa, liderando várias equipes de homens. O filme registra seu trabalho na supervisão de obras, em reuniões do Conselho Civil e na visita ao acampamento de refugiados. O olhar de Leila é intenso, deixando ver por trás uma história de dor, resistência e um medo que está longe de se extinguir. Mas a fala é serena e confiante como a de uma predestinada. Seus pais por pouco não foram expulsos de Raqqa como todos os curdos perseguidos pelos jihadistas.

Quando assumiu a prefeitura, a cidade estava irreconhecível. Ainda em 2019, durante as filmagens, Raqqa era um amontoado de ruínas onde a vida aos poucos começava a germinar novamente. Recomendo atentar para o epílogo emocionante rodado em 2020, quando Marine retorna para entregar o livro a Leila e a cidade já dava maiores sinais de renascimento. Ali estava uma brava mulher.

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