Festival do Rio “Uma Baía”

Recomendo a quem for ao festival algumas medidas essenciais: lembre-se de levar o seu comprovante de vacinação, que pode ser o certificado digital do ConecteSUS ou o comprovante em papel. Sem isso, a entrada nos cinemas não será permitida. Chegue de máscara e mantenha-a cobrindo o nariz e a boca durante todo o filme. Procure guardar o maior distanciamento possível entre as poltronas ocupadas.

A obra documental de Murilo Salles é um capítulo pouco estudado do cinema brasileiro contemporâneo. Quando organizamos sua retrospectiva em 2016, tive a oportunidade de me referir ao assunto neste texto. Eu situava essa parcela de sua filmografia como uma espécie de lastro conceitual de certos temas que Murilo desenvolve no subtexto dos filmes de ficção: a formação da identidade (seja ela pessoal ou nacional), os traços de improvisação e malandrice supostamente inerentes ao caráter brasileiro.

Eis que o cineasta me surpreende agora com um filme que talvez escape àquelas definições. Ou se encaixe nelas por vias oblíquas, uma vez que o prólogo cita Américo Vespúcio a respeito do continente americano: “Certamente se o paraíso terrestre estiver em alguma parte da terra, creio estar na região onde me encontro”. O navegador florentino estava na primeira expedição a aportar, em 1502, no que viria a ser chamada Baía de Guanabara. Uma Baía é um retrato multifacetado através de retalhos de vidas que se desenrolam às suas margens (pesquisa de elenco de Daniel Rolim).

Filme de observação radical, sem qualquer interação visível entre personagens e equipe, está dividido em oito módulos. Seis deles estão centrados em determinados personagens: um catador de caranguejos do Pontal do Ipiranga, um pescador de mexilhões de Niterói, um operário da Maré que também pesca, uma mulher de São Gonçalo que trabalha num entreposto pesqueiro, um construtor artesanal de barcos da Ilha do Governador e um barbeiro evangélico e conformista de Jurujuba. Juntem-se a isso os funcionários de um cais e, de quebra, um cavalo de charrete em Paquetá.

Pacientemente durante dois anos e meio, entre 2016 e 2018, Murilo e seus colaboradores coletaram fragmentos do cotidiano de trabalho daquelas pessoas. O ecossistema deteriorado da baía ainda fornece meio de vida para parte da população de vários bairros, municípios e ilhas. Uma Baía perscruta os recantos de terra e mar em que essa atividade acontece silenciosamente, sem que o resto da cidade e do estado dela se aperceba.

A fotografia de Leonardo Bittencourt e Fabrício Motta é de uma beleza quase transfiguradora, encontrando plasticidade onde parecia haver apenas o comum dos dias (e noites). Em algumas ocasiões, a câmera é atrelada aos movimentos de animais (um caranguejo, um cavalo) para inseri-los também como personagens, além de fornecer uma angulação e um efeito plástico inusitados.

Com muita frequência, fica manifesto o interesse do diretor pelas formas, pela harmonia ou a surpresa de certas composições, o que é característico de seus muitos filmes sobre arte. O trabalho sonoro (captação de Felipe Luz, Fabrício Motta e Heder Braga Fernandes) também é primoroso na forma como edita os sons ambientes, cria samplers e remixes que nos projetam para além da realidade descrita.

A montagem de Eva Randolph condensa longos períodos de observação em micronarrativas cativantes, que tornam cada módulo uma experiência consistente de entendimento e imersão. Para além da individualidade dos personagens em sua relação de coexistência e sobrevivência com a baía, o filme agencia alguns deles para nos propiciarem lampejos de suas respectivas comunidades. É o caso do passeio de bicicleta do operário pelas ruelas do Complexo da Maré e a amável convivialidade de um bairro quilombola em São Gonçalo. Mais uma vez se instala o dispositivo do “olho visitante” que aponto no meu texto sobre os documentários de Murilo Salles.

Esse modelo de observação modular de um painel humano ligado a uma geografia determinada me lembrou o trabalho de Gianfranco Rosi em Sacro Gra, dedicado aos habitantes da periferia de Roma, e no mais recente Notturno, com moradores de fronteiras do Oriente Médio. Trata-se de deixar de lado toda retórica verbal e buscar o essencial no movimento dos corpos empenhados no trabalho ou na criação.

Enquanto o Brasil se consumia no governo Temer e no circo midiático da Lava Jato, um punhado de brasileiros arrancava a vida com as próprias mãos das águas da Baía de Guanabara. Uma Baía, dedicado à memória do crítico José Carlos Avellar, nos traz uma visão quase entomológica de um pequeno mar que a maioria de nós só conhece de atravessar. Pode ser o lodo ou o paraíso, a depender de cada olhar e de cada necessidade.

Um comentário sobre “Festival do Rio “Uma Baía”

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