Pílulas das férias (1)

Publico aqui alguns pequenos comentários que postei no Facebook sobre filmes vistos durante o período em que o blog esteve de semiférias: CAROS CAMARADAS! TRABALHADORES EM LUTA, THE VELVET UNDERGROUND, PIXINGUINHA UM HOMEM CARINHOSO e PIEDADE.

CAROS CAMARADAS! TRABALHADORES EM LUTA

Andrei Konchalovsky fez uma abordagem ferozmente crítica do modus operandi soviético para controlar revoltas e circulação da informação. Uma greve e sublevação de operários contra o aumento do custo de vida numa pequena cidade, em 1962, envolve uma comissária regional do Partido Comunista e seu amante, um agente da KGB. Quando a filha dela desaparece durante o massacre dos rebelados, é chegada a hora da comissária colocar em xeque sua postura repressiva e seu fervor stalinista. Antes que o drama se adense na segunda metade, há um humor satírico na movimentação das autoridades civis e militares. Uma ou duas cenas parecem aptas a render muitos memes,como aquela famosa sequência de A Queda, com Bruno Ganz no papel de Hitler. Um belo filme, calcado na enfática dramaturgia russa tradicional. Só não entendo por que Konchalovsky optou pela tela quadrada com estranhos vazamentos de atores e assuntos nas quatro bordas. O acréscimo de “Trabalhadores em Luta” no título brasileiro desvia o sentido da ironia com a invocação comunista para um épico trabalhista, o que não é o caso.
>> Está no Now, Youtube Movies, Google Play, Apple TV, Vivo Play e Sky.


THE VELVET UNDERGROUND

Esse doc-colagem de Todd Haynes está na fronteira entre o clássico modelo americano de biografia de uma banda de rock e o filme experimental que almeja chegar perto do que foi The Velvet Underground. A banda só se forma aos 47 minutos de filme. Até ali, é Haynes tentando contar tudo ao mesmo tempo: como a contracultura de Nova York nos anos 1960 forjou uma arte expandida que juntava (não combinava) música, cinema e artes visuais. O caleidoscópio de imagens, com telas divididas em vários formatos, destaca não só Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison, Maureen Tucker, Doug Yule e a cantora Nico, membros do VU, mas também Andy Warhol, Jonas Mekas, La Monte Young, Amy Taubin e muitos outros que passaram pela The Factory e pelos shows da banda, que durou menos de 10 anos. O filme é um fluxo veloz de preciosas imagens filmadas por Warhol, Mekas, Jack Smight etc, além das entrevistas feitas recentemente pelo próprio Haynes.
>> Está na shortlist do Oscar e pode ser visto na AppleTV.


PIXINGUINHA, UM HOMEM CARINHOSO

Muito embora mostre o filme “Brasa Dormida”, que é de 1928, passando em 1911, essa cinebiografia de Pixinguinha parece tratar com cuidado do personagem e de sua época. A produção é caprichada, e a execução audiovisual tem requintes. É inevitável uma certa glamourização com atores como Seu Jorge e Taís Araújo nos papéis do casal. Mas as licenças permitem. O realismo conta menos para reencenar a vocação musical de Pizindin desde criança, sua ascensão profissional, a temporada em Paris com os Oito Batutas, o casamento com Betí (cuja carreira nos palcos ele castrou para servir como esposa do lar), a impossibilidade biológica de gerar um filho e as oscilações no sucesso. Tudo numa boa medida, a não ser pelo excesso de “Carinhoso”.
>> Está no Now e no Vivo Play.  


PIEDADE

Claudio Assis nunca primou pela disciplina narrativa, mas sua indisciplina quase sempre gerou uma poética peculiar, suculenta e transgressora. Em PIEDADE, porém, tudo isso se esvai numa história de fundo ambientalista que não parece comportar a verve do diretor. Ele então apela ao universo do pornô, onde circulam os personagens de Cauã Reymond e Matheus Nachtergaele. Resulta uma dicotomia desengonçada entre a sexualidade e o campo do melodrama social representado pelo núcleo de Fernanda Montenegro e Irandhir Santos. São dois âmbitos que conversam mal entre si num filme ralo e frustrante. O que me manteve atento na maior parte do tempo foram as atuações minuciosas do elenco, sobretudo nos encontros entre Matheus e Fernanda, e Irandhir e Cauã.
>> Está no Now, Youtube Movies, Google Play, AppleTV, Vivo Play e Sky.

 

Um comentário sobre “Pílulas das férias (1)

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