O pesadelo de Diana

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Pablo Larraín fez questão de sublinhar sua licença poética já na epígrafe de Spencer: “Uma fábula tirada de uma tragédia verdadeira”. A tragédia estava anunciada na condição da Princesa Diana desde que começaram seus problemas com Charles e a Família Real. O roteiro de Steven Knight semeia todas as pistas, do incômodo de Diana com as rotinas e obrigações da corte ao assédio da imprensa sobre sua personalidade destoante, passando pelo ciúme de Camila Bowles, pela bulimia e a autoflagelação.

A fábula vem por conta das especulações em torno da intimidade da moça. Aí se incluem a relação de sororidade com a camareira Maggie (Sally Hawkins) e sobretudo as projeções de Diana no fantasma de Ana Bolena, a rainha acusada de traição conjugal e decapitada no século XVI. Em apenas dois dias de um Natal, Diana é retratada no extremo de sua fragilidade mental, tomada pelo desejo impossível de voltar à casa de sua família original, os Spencer, já então abandonada e arruinada. Vale dizer, retornar a um estilo de vida plebeu, levando os dois filhos com ela. Algo completamente interditado à realeza, que, como diz alguém, não é composta de pessoas.

Alguns comentários paralelos realçam o aspecto fabular do filme, como a abordagem militarizada da cozinha real, fonte de alguns pesadelos de Diana. Ou a caça ao faisão, hábito visto pela princesa como símbolo de violência e desperdício. Larraín tira partido desses elementos para fazer suas costumeiras explorações do viés doentio da natureza humana.

Por outro lado, o diretor chileno vai se especializando em fatias biográficas de grandes damas internacionais. Sempre lançando mão de licenças. Se em Jackie ele parecia sugerir que Jacqueline Kennedy engolia sua aliança com um gole de água, em Spencer ele fantasia Diana deglutindo uma pérola do colar objeto da traição de Charles. Em ambos os filmes, Larraín trata de celebridades femininas em busca de suas dimensões essenciais.

O fausto da casa de campo de Sandringham foi minuciosamente reconstituído em castelos alemães. Uma possível influência do estilo e da pomposidade irônica de Barry Lyndon se insinua em algumas cenas externas e em interiores iluminados por velas. Kristen Stewart, única indicação ao Oscar obtida pelo filme, faz uma caracterização ousada. Sua voz, emitida em pequenos jatos, parece a única via por onde Diana pode canalizar seu sufoco, enquanto o corpo ainda sofre para se submeter aos ditames da família.

>> Spencer está na Amazon, Youtube Movies, AppleTV e Google Play.

Um comentário sobre “O pesadelo de Diana

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