Três mulheres e seus mortos

Sobre JACKIE, A ESPERA e CLARISSE OU ALGUMA COISA ENTRE NÓS DOIS

Difícil imaginar um choque tão grande quanto o de Jacqueline Kennedy amparando a cabeça de John estraçalhada pelo tiro e tentando em desespero recompor o crânio esfacelado. Embora apareça apenas furtivamente, esta cena domina JACKIE, de Pablo Larraín, indicado para os Oscars de atriz, figurinos e música. Descontados alguns rápidos flashbacks, o filme se concentra nos momentos e poucos dias que se sucederam ao atentado. Como Jackie reagiu ao trauma, assumiu a organização dos funerais e lançou as bases do mito John Kennedy.

A mais célebre primeira-dama do Ocidente foi um evento de mídia, e é assim que o filme pauta seus dois tempos: a gravação de um programa de TV sobre a Casa Branca em 1961 (dirigido por Franklin J. Schaffner) e a concessão de uma entrevista em novembro de 1963 (ao jornalista Theodore H. White). Entre os dois momentos, o que se vê é a transformação de uma mulher acanhada diante das câmeras em uma viúva apta a dominar o seu discurso e sua versão da “verdade”. Paralelamente, ela é também a celebridade em busca de respostas essenciais junto ao padre confessor (John Hurt, já bastante abatido pelo câncer).

Natalie Portman trata o papel com o máximo cuidado, fazendo o possível para reproduzir a elegância e ao mesmo tempo o jeito doméstico de Jacqueline. O retrato construído por Larraín e o roteirista Noah Oppenheim é o de uma mulher obcecada pelos detalhes e pela própria vontade. Seu empenho em recompor uma imagem e salvar um legado pode ser simbolizado pela iniciativa de recolher os miolos de John no capô do carro e colocá-los de volta no lugar. O aspecto biográfico convencional é dissimulado por uma série de reticências visuais, cenas estranhamente interrompidas e até um corte bizarro que nos leva a entender que Jackie teria engolido sua aliança com uns goles d’água.

“Uma primeira-dama deve estar sempre pronta para fazer as malas”, diz ela. JACKIE quer mostrar que Jackie saiu da Casa Branca antes do tempo, mas fez questão de não sair da imaginação dos americanos. Numa cena perto do final, ela vê as vitrines povoadas de manequins parecidos consigo mesma. Seu olhar é de alguém vitorioso, mas que se sabe re(pro)duzido a ícone de aparência e consumo.



Livremente inspirado numa peça de Pirandello, A ESPERA narra uma estranha história de denegação do luto. Juliette Binoche é uma mãe que acaba de perder o filho quando recebe a visita da namorada dele (Lou de Laâge), que não sabia do ocorrido. Esconder o fato da moça torna-se, então, uma forma de ocultá-lo de si mesma. Além disso, a jovem passa a representar um simulacro que estende a permanência do filho no convívio com a mãe. A época da Páscoa na Sicília agrega um subtexto de morte e ressurreição.

Para construir essa difícil equação psicológica, o diretor Piero Messina optou por um minimalismo estilizado e soturno, repleto de silêncios, e por uma exploração gélida e solene do cenário da villa siciliana. O resultado nem sempre é convincente. Por um lado, o desenho de luz e a utilização dos espaços alimentam o clima de mistério e desorientação quanto ao comportamento da mãe. Messina foi assistente de Paolo Sorrentino em “A Grande Beleza” e compartilha a mesma valorização da direção de arte como elemento narrativo. No entanto, a passividade da menina diante da falta de qualquer contato com o namorado e o desconhecimento tão prolongado da verdade resultam bastante artificiais. Soa afetada também a relação de amizade que se forma entre as duas, principalmente pela forma insinuante com que Binoche entoa suas falas e sorrisos. O mistério fabricado artificialmente pode funcionar nas aparências, mas não se sustenta no plano da realidade.



Água e sangue jorram à vontade pelos corpos em cena no terceiro longa de Petrus Cariry, CLARISSE OU ALGUMA COISA ENTRE NÓS DOIS. No limite entre o filme de horror e o drama familiar, acompanhamos o fim de semana de Clarisse (Sabrina Greve), longe do marido estrangeiro e do filho, em companhia do pai doente (Everaldo Pontes) numa casa de campo na serra cearense. O peso de duras recordações se projeta sobre os dois, em ambiente pontuado por simbologias ligadas à natureza e à morte.

O roteiro – assinado por Petrus juntamente com seu pai, Rosemberg Cariry, e o roteirista, montador e crítico Firmino Holanda – é ambicioso na enunciação e minimalista na escrita. Para atravessar da inapetência sexual demonstrada na primeira cena para a energia bárbara exposta na sequência final, Clarisse vai passar por experiências-limite com o próprio corpo e o do pai. O sacrifício e dissecação de animais e o ciclo vital dos vagalumes, que criam e destroem sucessivamente, são metáforas aplicadas à estranha e muitas vezes enigmática relação entre os personagens.

O filme tem uma gramática visual requintada e um tratamento sonoro imersivo, como os anteriores do diretor (“O Grão”, “Mãe e Filha”). Mas, como naqueles, alguma coisa desse virtuosismo se esteriliza numa espécie de rigor mortis, causado pela dicção solene, os movimentos ritualizados, a exposição artificialmente lenta e uma (des)articulação de sentidos que pode frustrar quem aprecia um cinema mais narrativo e menos cifrado.

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