Salgadas famílias

Famílias de cair o queixo fizeram meu programa ontem (sexta) no Olhar de Cinema – I Festival Internacional de Curitiba. Sangue do meu Sangue, do português João Canijo, e Tudo que Deus Criou, do paraibano André da Costa Pinto, são filmes magnetizantes por força não só de suas tramas familiares impactantes, mas também pela potência da forma como elas se desenrolam na tela.

Tudo que Deus Criou é o primeiro longa de André e da maior parte de sua equipe, integrada por muitos alunos da Universidade Estadual da Paraíba. Mas não parece. O filme narra com apetite e quase sempre com precisão de tempo e tom uma história baseada em fatos. Para não estragar as muitas surpresas do roteiro, limito-me a enumerar alguns personagens: um bibliotecário viúvo com vida sexual clandestina, um jovem travesti que se prostitui às escondidas da família, um cunhado abjeto, uma jovem cega à procura de prazer, uma mulher sufocada por um casamento infeliz. A maneira como essas figuras vão interagir numa rede de afetos, violência e casualidades é a grande qualidade do trabalho. Mas não a única.

A câmera de João Carlos Beltrão tem um papel admirável na construção dos planos e na geração de sentidos adicionais através das escolhas de enquadramento. O elenco praticamente impecável inclui Paulo Vespúcio, Letícia Spiller (excelente como a cega cheia de amor pra dar), Guta Stresser, Maria Gladys, Paulo Philippe e Cláudio Jaborandy. A mescla de sordidez e ternura tem momentos de incrível beleza na medida em que as relações entre os personagens evoluem por caminhos inesperados. Um belo filme com lugar garantido entre os mais fortes do jovem cinema brasileiro.

Já o português João Canijo oferece talvez a mais refinada e ao mesmo tempo mais crua visão de seus típicos personagens às voltas com a sobrevivência física e moral nas classes populares. Sangue do meu Sangue mostra alguns dias na vida de uma família da periferia de Lisboa. A mãe faz tudo o que pode para impedir a relação da filha com um professor mais velho, já que tem fortíssimos motivos para isso. Sua irmã, solitária e perdidona, interrompe os planos de um implante mamário quando precisa salvar o sobrinho de uma enrascada com um traficante sádico.

São ações muito básicas, mas que ganham força pelo regime de exposição, sempre muito intenso e ancorado num misto de improvisação e convicção profunda dos atores. A impressão é de que aquele grupo vive junto há muito tempo naqueles cubículos apertados, onde, por aparentemente não caber, a câmera vê tudo pelas janelas, portas e vãos. O som é um caso à parte, na medida em que Canijo filma conversas paralelas às vezes dentro de um mesmo quadro, ao passo que as conversas e músicas da vizinhança penetram o ambiente constantemente. Tata Amaral havia feito isso em Um Céu de Estrelas. Roberto Moreira tinha captado algo desse clima familiar em Contra Todos. Sangue do meu Sangue leva esse tipo de dramaturgia ao nível da obra-prima, operando entre o melodrama, matriz de sempre de Canijo, e o sentimento de lugar de um Pedro Costa, menos o experimentalismo.

A seguir, a título de curiosidade, algumas frases que anotei dos diálogos de Sangue do meu Sangue:

– “Vergonha é o homem não ter onde se ponha”
– Tens sorte. Gosto tanto de ti”
– Até a dormir tenho razão”
– Enfio-lhe a garrafa de vodka pelo cu a dentro que o gajo vai ter uma bebedeira anal”
– Por que tomas tanto banho? Gasta-te a pele!”
– “Quando a sorte é velhaca, nada vale ao pecador”
– “Para comer uma gaja, é preciso esse espetáculo todo?”

8 comentários sobre “Salgadas famílias

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  3. tudo que Deus criou foi puro e verdadeiro e não a depravação humana,tudo que é errado faz parte do ser humano..o senhor meu Deus só criou dois sexo homem e mulher,e não a história deste filme que é contada pelo seu autor,tubem, conta-se a realidade de hoje,mas Deus nada tem haver com o sexo invertido.DEUS FEZ O HOMEM PARA A MULHER,E A MULHER PARA O HOMEM.Não critico a abilidade e competencia dos proficiionais e sim o dizer tudo que Deus criou.Deus não fez isto.andré não faço a critica a voce e sim ao tema apresentado.
    voce vai longe se escolher temas mais importantes para as família brasileiras,mas, para todas as nações.

  4. Assisti Tudo que Deus Criou em Campina Grande, no lançamento.Mesmo já conheçendo os trabalhos e o perfil de André, fiquei maravilhada da forma em que a poesia, a suavidade envolve essa trama. Um perfil real da nossa realidade nordestina, mas que as nuances da alma desse diretor faz com que não seja tão agressivo. Marluce da Costa.

  5. Carlinhos,

    Fiquei ainda mais curioso para ver o filme de André, que ainda não foi exibido em João Pessoa.

    Abraços

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