Welcome back, Scorsese

Há um bom tempo eu não gostava tanto de um filme de Martin Scorsese. Coisas como Gangues de Nova York, Os Infiltrados e principalmente O Aviador me pareciam bolos de noiva confeitados por um cineasta que trocava o estilo pela produção, o carisma cinematográfico pela diluição em fórmulas grandiloquentes. Ilha do Medo me reconciliou com Scorsese porque põe o imenso talento do cineasta de novo a serviço de um roteiro denso e intrigante.

lha do Medo injeta loucura no filme noir ao mostrar um homem inserido numa trama que se divide entre a realidade objetiva e os delírios da imaginação. Vi o filme apenas uma vez e confesso-me ainda indeciso quanto à ambiguidade da história de Teddy Daniels/Andrew Laeddis. Embora tenha previsto relativamente cedo a chave do segredo, não fiquei inteiramente convencido do desdobramento final. Não que isso diminua meu interesse pelo filme, pelo contrário. Agrada-me o fato de poder recriar a história segundo outro ponto de vista, mesmo à revelia dos rumos que ela toma na tela.

Lembro-me do clássico expressionista O Gabinete do Dr. Caligari, em que os produtores impuseram um final divergente para salvar a reputação da psiquiatria. É claro que ninguém impôs nada a Scorsese, mas Ilha do Medo parece incorporar uma “correção” do desvio clínico. O universo da ilha é tão fechado que mesmo nós, espectadores, podemos estar sendo vítimas de um enredamento diabólico.

Mas Ilha do Medo é um filmaço não somente por ser complexo e por ser a melhor encarnação da parceria Scorsese-DiCaprio até agora. É um filmaço porque realça o apetite do diretor pela forma cinematográfica. Não me lembro de um plano do filme que não seja motivado por um desejo voluptuoso de expressão. Nada é puramente funcional. Cada movimento de câmera serve para dilatar ou comprimir o espaço, além de dramatizar as distâncias (físicas ou transcendentais) entre os personagens. Se alguém abre uma porta, um corte rápido faz da porta a protagonista do momento. Se soa uma campainha, alguém risca um fósforo ou coisa assim, a montagem potencializa o pequeno ato numa efeméride de ritmo, luz e som. Quando DiCaprio mergulha no mar, vemos até o reflexo do seu corpo passando sobre a água.

O conjunto de cenas espantosas – as aparições da mulher morta, o fuzilamento dos soldados nazistas, o cigarro de Chuck na crina do penhasco – fazem de Ilha do Medo um espetáculo nas melhores tradições do grande cinema americano. Esse é o terreno onde brota melhor a genialidade de Scorsese. Ao mesmo tempo, o recurso ao fantástico representa uma exceção em sua carreira.                

4 comentários sobre “Welcome back, Scorsese

  1. Pingback: Meus filmes do ano « …rastros de carmattos

  2. Olá, Carlos!

    Achei “Ilha do Medo” tecnicamente bastante interessante… todos os planos, a fotografia, os cortes repentinos… tudo muito bem orquestrado. As cenas “espantosas”, como você mesmo colocou, são realmente um espetáculo à parte. Porém, a história em si me decepcionou muito. O ato final, por exemplo, parecia ter a pretensão de surpreender o espectador, tal qual os filmes fracos de M. Night Shyamalan. Por isso, afirmo: um grande titã do cinema como Scorsese poderia ter feito bem melhor, com certeza.

    Grande abraço!

  3. Sabe aquela listinha (famosa) dos críticos sobre os 10 mais de 2010 que será publicada no meio de dezembro? Dou minha cara à tapa se “Ilha” não estará entre os 10 mais de gente de estilo e gosto, como você, Rodrigo, enfim… Surtei com o filme. O cara é o mestre. Rei que é rei nunca perde a majestade. Estou terminando de ler o Peter Biskind e o Scorsese de “Ilha do Medo” se parece muito com aquele “Marty” que tinha conseguido sua primeira oportunidade como montador na Warner e havia chegado a NY semanas antes. Estava hospedado no Motel Toluca, do outro lado da rua do estúdio. Sonhava com livros raros quando ouviu um ronco surdo e imaginou estar no metrô. “Pulei da cama e olhei pela janela”, recorda. “Tudo tremia. O céu estava riscado de raios – eram os fios de alta tensão se soltando dos postes e caindo no chão. Era horrível. Eu pensei: ‘Tenho que dar o fora daqui.’ Quando finalmente calcei minhas botas de caubói, peguei meu dinheiro e as chaves do quarto do motel e saí porta afora, tinha acabado. Fui para o Copper Penny e, quando tomava meu café, houve um tremendo choque secundário. Eu me levantei e saí correndo e um cara olhou para mim e perguntou: ‘Para onde você está indo?’ E eu disse: ‘Você está certo. Estou preso aqui.'”
    Não é sensacional? Beijos!

    • É isso aí, Leninha. Eu e o livro do Biskind estamos aqui nos encarando, mas ainda não o li, nem ele me leu. Bjs

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