Simpatia política não garante bons filmes

Quem me conhece e lê meus textos, sabe que estou acima de suspeitas para falar mal de um filme de esquerda. Por isso me sinto à vontade para rebater algumas opiniões sobre a recepção crítica ao doc Ao Sul da Fronteira, de Oliver Stone. Já li vários textos citando a má vontade da mídia para com o filme. Não nego que a má vontade exista, mas não acho que seja a única responsável pelas resenhas frias ou negativas. Mesmo porque, na maioria dos casos, os críticos de cinema não costumam se pautar exatamente pela linha editorial dos veículos.     

Falando honestamente, o filme decepciona mesmo quem concorda que a mídia conservadora demoniza Fidel, Chávez e Morales. Stone fez, sem dúvida, um filme teoricamente necessário para se contrapor às mentiras da imprensa, mas a debilidade do resultado depõe contra suas ótimas intenções. A pesquisa é incipiente, a narração dos eventos do governo Chávez é confusa, e a improvisação dá o tom onde deveria haver reflexão e aprofundamento.

Stone, definitivamente, não é Michael Moore – embora o cite logo no início do filme. Sua turnê às Américas do Sul e Central parece uma sucessiva adulação de líderes, sem maior atenção à realidade de cada país. A falta de nuances compromete a argumentação. Chávez, por exemplo, jamais é questionado sobre sua sede de permanência no poder, que tanto prejudica a reputação de sua revolução bolivariana. Coube a Nestor Kirchner a única referência a esse aspecto. Kirchner, aliás, é responsável pela mais alarmante revelação: George W. Bush teria dito a ele, em tom raivoso, que a guerra contra o Iraque iria fomentar a economia americana.

Lula, cá entre nós, também dá um show de carisma e segurança em seu encontro com “Oliver”.

Mas nada disso confere ao doc a importância que Stone almejava. E para isso contribui não só a indisposição da mídia ofendida, mas também a carência de valor retórico, histórico e cinematográfico. O filme vive somente da simpatia política, razão da minha cotação mediana na coluna à direita. 

Como radiografias do novo panorama político “ao sul da fronteira”, são muito mais consequentes, matizados e interessantes o brasileiro Pachamama, de Eryk Rocha, e o uruguaio Con los Ojos Bien Abiertos, de Gonzalo Arijón, exibido no É Tudo Verdade do ano passado.   

6 comentários sobre “Simpatia política não garante bons filmes

  1. Transcrevo aqui um comentário da Helena Sroulevich, que não está conseguindo postar diretamente e me enviou por e-mail:

    Meu saudoso Carlinhos! Conferir novidades da sétima arte e os blogs de cinéfilos não têm feito parte do meu cotidiano. Ando muito ocupada assistindo à Copa do Mundo (de Futebol) e à Liga Mundial (de Vôlei). Questão de Prioridade. 🙂 Mas fiz questão de carimbar a bilheteria de “Ao Sul da Fronteira”, logo na 1a sexta-feira de exibição. Saindo do cinema, pensei: é um filme necessário. NECESSÁRIO. Também gostei da linguagem inovadora do documentário. Gosto da câmera e dos enquadramentos do Oliver Stone e da forma como conduz o bate-bola com os Kishner, Rafael Correa, Evo Morales, padreco paraguaio, e a troca de figurinhas com os simpáticos Lula, Chavez e Raul. Gostei do filme, entretanto lamentei. Fiz o que você, certa vez, assinalou ser um dos maiores equívocos da crítica: lamentar o que um filme não é. E fui além: pensei no que poderia ser. É como se eu sentisse que Oliver Stone perdeu uma oportunidade de esclarecer tantos espectadores sobre os (belos, importantes e diferentes entre si, enfim NECESSÁRIOS) processos por que passa a América Latina. Talvez esta fosse a minha, a nossa vontade. No fundo, acho que ele apenas preferiu defender sua visão política e pessoal de que a América Latina tem em Hugo Chávez seu líder máximo e sucessor natural de Fidel Castro – coisa que eu discordo política e duplamente. Quem conhece Fidel, sabe que Chávez só parece com ele no quesito anti-americanismo. E só. Mas não absolvo a crítica não. Não sei o quanto as linhas editoriais de um jornal influem nas opiniões dos críticos, mas uma coisa é certa: houve má vontade de se falar bem de um filme assumidamente favorável a Chávez. É aí talvez residam minhas maiores insatisfações. Tenho a impressão que este posicionamento afasta o potencial público de um filme NECESSÁRIO. E, no “frigir dos ovos”, é o que importa. O que me diz? Concorda? Discorda? Beijos grandes.

    • Leninha darling, eu não consigo sair da posição de crítico de cinema para analisar um filme apenas pela sua importância política. E como crítico, discordo de você quanto à “linguagem inovadora” do doc do Stone. Onde há inovação ali, minha flor? Uma câmera de “guerrilha”, filmando como pode, submetida às condições impostas pelos entrevistados e a ocasião. Pode até ser considerada adequada para um doc de jornalismo rastaquera, mas inovadora? Não posso concordar. As conversas renderam muito pouco, de tal maneira que a narração precisa explicar contextos o tempo todo, e o faz muito mal. O Janot no Globo, por exemplo, foi até mais generoso do que eu talvez seria. A Rosário vive dando força para o filme no Almanaque dela, pelo ângulo do “necessário”. Mas eu acho que a “necessidade” de um filme não o redime de defeitos que até sabotam sua base de aceitação e de valorização.
      Beijos continentais

  2. Esse documentário mostra bem a persona que o diretor Oliver Stone pretendeu construir ao longo da carreira. Ele gosta de polêmica não é de hoje (principalmente dessa coisa panfletária de pôr o dedo na ferida alheia). Ao sul da fronteira é só mais um exemplar dessa sua faceta, por vezes, tresloucada.

    • Não concordo, Roberto, que a ferida seja “alheia”. Quando ele fala da guerra do Vietnã, da morte de Kennedy, do Bush ou da demonização de líderes que se opõem ao imperialismo norte-americano (Arafat, Fidel, Chávez), ele está pondo o dedo em feridas do seu próprio país. Como cidadão americano, está no seu pleno direito. A qualidade dos filmes, isso sim, é outra questão. Particularmente, acho “JFK” uma obra-prima.

  3. Querido Michiles, conheço “Puente Llaguno” e “A Revolução não será Televisada”. Ambos vão fundo na questão venezuelana e são ótimos filmes. Minha apreciação do filme do Stone, como deixei bem claro, não é política, mas cinematográfica e documental. Nesses aspectos, o filme deixa muito a desejar.

  4. Carlinhos, Tbm concordo com o ritmo narrativo, mas não se pode querer que um filme te responda todas as questões, ainda mais tratando-se de uma situação totalmente nova. Creio que o olhar critico deste filme deve situar-se na perspectiva da perplexidade de um norte-americano que discorda do comportamento do “imperio do norte” no passado, no presente e pretende-se, eles sim, perpetuar-se no poder. Ele faz um paralelo do poder da mídia no EUA e na Venezuela nuam tentativa desesperada de tira-lo do poder.(*) A questão Chavez é um detalhe neste quadro de desmandos que o continente tem vivido ao longo do seculo XIX, XX e XXI…Dizer que o filme é ingênuo…como a imprensa repercutiu, francamente.
    (*) Assista “Puente Llaguno Claves de Una Massacre” de Angel Palacios, 2004
    http://www.clavesllaguno.com.ve

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