A capital do inferno

Na primeira imagem, uma ameaçadora mancha preta escorre pela tela até cobri-la completamente, remetendo a um vazamento de óleo. Daí em diante, uma sucessão de imagens e sons inquietantes colocam o espectador em estado de tensão. É como se a ameaça ambiental se materializasse no cenário de uma grande cidade brasileira. Imagens-síntese de desperdício, proliferação, corrosão. Um apocalipse iminente.

Não estou falando de um filme de ficção científica, mas do último trabalho do documentarista Jorge Bodanzky. Pandemonium é um alerta sobre o dispêndio indiscriminado de energia não renovável no mundo e suas consequências para as condições de vida no planeta. A argumentação verbal parte dos cientistas Rogério Cezar de Cerqueira Leite e Carlos Nobre. Otimismo pontual e pessimismo generalizado se revezam em suas falas, a partir de uma constatação de Rogério: “O homem é uma espécie de parasita que mata seu hospedeiro”.      

Rogério e Carlos discorrem sobre a forma superficial como nos preocupamos com o meio-ambiente e a necessidade de partirmos para grandes soluções que garantam um modelo sustentável para médio e longo prazo. Seguir apostando em veículos movidos a combustíveis fósseis e no desmatamento pode ser o caminho mais curto para a Terra se converter na capital do inferno (sentido mítico da palavra pandemônio conforme o poema Paraíso Perdido, de John Milton).

O doc de 52 minutos pode ser visto na íntegra no site da Elo WebTV. Você pode conferir como Bodanzky apresenta aqui um estilo diferente para escapar ao modelo de doc-palestra. Ele trabalhou falas, música (Thiago Cury e Marcus Siqueira), fotos e imagens em movimento (Matheus Rocha assina a fotografia) em regime de simultaneidade, perfazendo uma suíte audiovisual impactante. As imagens colhidas em São Paulo e na Amazônia são ressignificadas mediante uma montagem experimental (de Lucas Justiniano) e um tratamento cromático de grande efeito (por Alex Yoshinaga). As tonalidades ácidas predominam, reforçando nas palavras o sentido de urgência que carregam.

No fim das contas, Pandemonium mostra como um realizador supera as limitações de um projeto relativamente convencional através da criatividade potencial de sua linguagem.         

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