Cinema em sincronia

O CARAMANCHÃO (THE ARBOR)
de Clio Barnard

A rigor, eu não deveria estar escrevendo sobre este filme. Assisti a uma cópia sem legendas, incapaz de entender o inglês popular provinciano de Bradford, norte da Inglaterra. Tive que ir ao Google para saber as linhas gerais da história da dramaturga Andrea Dunbar (1961-1990), jovem revelação com a peça The Arbor e autora também da conhecida Rita, Sue and Bob Too (cuja versão cinematográfica recebeu no Brasil o título de Rita, Sue e Bob Nu). Andrea bebeu todas e morreu uma década depois de estourar em Londres, de hemorragia cerebral. O filme divide seu tempo narrativo entre os dados de sua vida e o destino não muito melhor da filha Lorraine, viciada em heroína, perseguida por casar-se com um paquistanês e presa sob acusação de negligência na morte da própria filha de dois anos de idade.

Sabidos os fatos, eu continuaria hesitando em recomendar o filme, não fossem os métodos utilizados pela diretora Clio Barnard. Se você procura experiências de ponta no É Tudo Verdade, esse é o seu filme. Clio gravou entrevistas com parentes (inclusive Lorraine) e pessoas ligadas à família Dunbar. Em seguida, colocou atores para representar essas falas em absoluta sincronia labial, mas colocados em situação levemente dramatizada, assim como alguns flashes da infância de Lorraine. Acrescentou trechos da peça The Arbor encenados no pátio da propriedade em que os Dunbar ainda vivem, ao ar livre e sob os olhares dos moradores reais. Os atores anunciam as cenas para a câmera e atuam em cenários apenas insinuados. Complementam o material algumas poucas imagens reais de Andrea em programas de TV.

O que temos, então – independente de entendermos ou não o que é dito –, é uma oscilação permanente da nossa percepção entre o cinema e o teatro, o documentário e a ficção. Oscilamos entre a voz legítima que ouvimos e a técnica utilizada para ancorá-la visualmente. E as falas são como campos minados para os atores, com muitas hesitações, palavras interrompidas, pausas irregulares, conversas entre vários personagens, soluços, tosses etc. A façanha é memorável. Um crítico britânico a comparou à dublagem de Creature Comforts, o que é um elogio relativo, um vez que em animação as coisas são muito mais facilitadas. E esses múltiplos recursos não são gratuitos, uma vez que correspondem ao trânsito que sempre existiu entre a vida e o teatro de Andrea Dunbar. Ela colocava em cena justamente os seus amigos e vizinhos de Bradford.

Não tenho ideia de que apelo esse filme possa ter para o espectador brasileiro, se será atraente ou entediante. Mas certamente há algo ali que interessa a quem vem saboreando os recentes desdobramentos do cinema híbrido.

P.S. O filme tem 90 minutos, e não 120 como consta no material do festival

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