Passeios no bosque da arte

Foto: Rosane Nicolau

Beehive Bunker, de Chris Burden

Dois dias são o tempo mínimo necessário para conhecer razoavelmente Inhotim, misto de jardim botânico, laboratório paisagístico e multigaleria de arte contemporânea a 60 km de Belo Horizonte. Trata-se de uma oportunidade rara, eu diria mesmo no mundo, de se perceber in loco as possibilidades de interação entre arte e natureza. Esse é mesmo um dos objetivos do projeto criado por Bernardo Paz a partir de uma fortuna amealhada na indústria de mineração e do desejo de interferir vigorosamente na forma como se consome a arte contemporânea e a (arte) botânica no Brasil.

(Clique nas fotos para vê-las maiores)

Fotos: Carlos Alberto Mattos e Rosane Nicolau

Folhagem e Galeria Miguel Rio Branco

Para começar, a solenidade dos museus é suavemente desmontada pelo fato de as obras de arte estarem distribuídas num imenso parque. São cerca de 500 obras de 97 artistas de 30 nacionalidades, dispostas ao ar livre ou dentro das 18 galerias espalhadas pelo terreno. A ideia de passeio sobrepõe-se à de maratona cultural, e o visitante se sente mais um flâneur que um consumidor programado de cultura. Entre uma obra e outra, caminhamos por alamedas de palmeiras, orlas de lagos, praças ajardinadas, caminhos de pedra e até trechos de bosque denso em carrinhos especiais.

Fotos: Carlos Alberto Mattos

O domo geodésico de Matthew Barney e as esferas de Yayoi Kusama

De repente, no meio da vegetação podemos nos deparar com uma espécie de iglu tecnológico, ou uma esfera de vidro semelhante a uma nave espacial, ou um imenso cubo de concreto, ou uma piscina conceitual onde queremos mergulhar o pensamento. A harmonia entre essas estruturas arquitetônicas ou escultóricas e o entorno verde é algo que não pode ser descrito, mas apenas experimentado. A natureza é tratada como arte, ao passo que a arte, cuidadosamente “plantada” em cada jardim ou edificação construída especialmente para a obra, aparece como algo que “nasceu” ali naturalmente.

Algumas obras comentam sem rodeios o diálogo arte-natureza. Como a árvore suspensa em vigas de metal de Giuseppe Penone, ladeada por outras árvores plantadas que no curso do tempo abraçarão e cobrirão a árvore biônica central. Ou as esferas de aço de Yayoi Kusama, que flutuam numa piscina ao sabor do vento, formando uma obra mutante e que, ao refletir a imagem do espectador nas bolas, multiplica caleidoscopicamente o efeito de Narciso. Outro destaque nesse agenciamento da natureza é a instalação Sonic Pavilion, de Doug Aitken. Dentro de uma cúpula num dos pontos mais altos do terreno de Inhotim, podemos ouvir os ruídos do interior da terra através de microfones instalados num buraco de 202 metros de profundidade. As atividades de mineração da região reverberam nas caixas de som do ambiente.

Fotos: Carlos Alberto Mattos

Iglu de Olafur Eliasson e corola de uma palmeira

Quando saí de Belo Horizonte para Inhotim, Jean-Claude Bernardet me fez o alerta: “Aproveite as obras, mas não deixe de apreciar o jardim”. Lembrei-me dele a cada instante de deslumbramento diante, por exemplo, da diversidade das palmeiras – são cerca de 1500 espécies diferentes na maior coleção do mundo no gênero –, das flores e frutos exóticos que a gente quase toma por alguma delicada escultura, dos bancos “naturais” feitos de troncos inteiros embelezados por suas imperfeições. Tudo isso resgata uma dimensão artística da botânica e da jardinagem, muito comum nos jardins japoneses, mas aqui aditivados pela exuberância da flora tropical.

Fotos: Carlos Alberto Mattos

Detalhe de "Invenção da Cor" de Helio Oiticica e um banco do parque

Inhotim é também um curso rápido de arte contemporânea. Textos curtos mas densos introduzem cada obra, pontuando os sentidos buscados pelos artistas e as conexões entre os conceitos envolvidos. Como todo mundo, saí de lá com algumas obras preferidas. Forty Part Motet, de Janet Cardiff, é uma instalação de alto-falantes de pé dispostos em círculo num grande salão, emitindo um canto coral do século 16. Ao nos aproximarmos de cada caixa de som, ouvimos a voz específica de um dos cantores. Além da experiência auditiva única, há a sugestão visual da presença física dos cantores na sala, representados pelos alto-falantes erguidos à altura de um homem. Emocionante.

Fotos: Carlos Alberto Mattos

Esculturas de Edgard de Souza e trabalhadores do parque

Afora algumas obras já citadas, apreciei muito as esculturas humanas de Edgard de Souza, com as cabeças fundidas umas às outras ou enterradas no chão; as grandes vigas de ferro cravadas por Chris Burden no alto de uma elevação, compondo uma espécie de Pollock pesado e tridimensional; a grande sala densamente ocupada por Thomas Hirschhorn com ferramentas, livros de filosofia e fotos de corpos mutilados, tudo amordaçado com um aluvião de fita crepe.

Fotos: Carlos Alberto Mattos

Troncos de árvores e as vigas de "Beam Drop", de Chris Burden

E, bem, há os clássicos pelos quais já chegamos salivando em Inhotim. Lá estão cinco Cosmococas para entrar, brincar, banhar-se ou relaxar ao som de Jimi Hendrix ou John Cage. Lá está o quarto vermelho do Cildo Meireles, com sua sala adjacente por onde caminhamos em plena escuridão rumo àquela pia misteriosa de onde jorra “sangue”. Como não se deixar ficar uma boa hora no estupendo Pavilhão Miguel Rio Branco degustando as fotos-choque do bairro do Maciel, em Salvador, e o doc-ensaio Nada levarei quando morrer, Aqueles que me devem cobrarei no Inferno, entre muitas outras obras do artista em várias mídias?

Passeando por Inhotim, a gente pouco se dá conta de que o complexo não para de crescer. Obras para receber mais obras. Uma Grande Galeria está sendo construída, assim como estufas e laboratórios para as pesquisas de botânica. Muitas obras de arte já passaram pelas galerias e hoje pertencem à reserva técnica do instituto ou já foram desmontadas. Outras virão para se juntar às permanentes, numa dinâmica que não transparece na serena estabilidade do lugar. Tudo é relativamente novo, mas parece ter estado sempre ali – e não tem data para sair. Com certeza, uma das maravilhas do Brasil.

6 comentários sobre “Passeios no bosque da arte

  1. Carlinhos, que fotos lindas! Vontade de voltar a Inhotim. Mas, graças a sua dica, terei mais delícias do “vento” de lá mesmo antes do retorno. Beijos.

  2. Carlinhos,

    Conheci Inhotim num final-de-semana do último mês de setembro.
    Apesar de todos os comentários que ouvira anteriormente, o passeio paisagístico/cultural que empreendi superou todas as expectativas. É
    lugar para ser visitado mais de uma vez, mesmo porque haverá sempre novidades. A visão empresarial de Bernardo Paz vem transformando
    sua imensa gleba rural em pólo turístico de dimensão universal. Nós, que lá estivemos, somos seres privilegiados! Abrs, Reinaldo

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