Os anos loucos da Cahiers

Numa especialíssima sessão na quarta-feira, o Fórum Doc BH apresentou – provavelmente pela primeira vez fora da França – o filme À Voir Absolument (Si Possible) – Dix Années aux Cahiers du Cinéma, 1963-1973. Cheirando ainda à mesa de edição, ele aparece na internet como lançamento de 2012. O privilégio dos mineiros veio por conta da relação que o Fórum mantém com Jean-Louis Comolli, um dos autores do filme junto com Jean Narboni e Ginette Lavigne. O próprio Comolli ofereceu a pré-estreia.

Como cinema, não há qualquer pretensão. Comolli e Narboni, redatores-chefes da Cahiers no período citado, limitam-se a conversar (mais ouvir, na verdade) com ex-colegas da redação sobre as decisões que levaram a essa ou aquela escolha editorial. A efervescência daqueles anos fazia com que cinema e ideologia se cruzassem constantemente. Foi o tempo da eclosão dos cinemas novos, da revalorização do cinema hollywoodiano pelos franceses, de Maio de 68, da fase de alinhamento da revista ao Partido Comunista e da adesão ao maoismo, que chegou a expelir as fotos das páginas da Cahiers.

Eles conversam desconfortavelmente numa sala de cinema, reproduzindo um filme de arquivo que flagrava os redatores jovens em situação semelhante. Às vezes, os venerandos atuais contemplam diretamente as imagens de outrora (como Narboni e Comolli na foto acima), mas não há grandes alusões à contemporaneidade. Trata-se de um projeto memorialístico de grupo, onde chega-se a lavar alguma roupa suja, como Jacques Aumont confrontando os que o demitiram no passado.

Curiosamente, quem tem uma das participações mais marcantes é Sylvie Pierre, a namorada francesa do cinema brasileiro. Quando entrou na Cahiers, ainda não mordida pela mosca da cinefilia, Sylvie era responsável pela fototeca. Depois passou a redatora e entrou para a “família”. No filme, porém, ela alterna louvores e questionamentos. Recorda sem rodeios a sensação de “terror” que dominava as reuniões da redação nos períodos mais politizados. O terror de parecer alienado ou ignorante. “Só me senti à vontade para apreciar Lelouch depois de ir para o Brasil”, exemplifica. Sylvie cita diversas vezes sua experiência brasileira, usando inclusive a expressão “fazer a cabeça” e dando o crédito da procedência. Não sei até que ponto a convivência de Sylvie com Glauber Rocha e com as propostas de um cinema revolucionário teriam criado um diferencial no seu olhar em relação ao dos colegas que se mantiveram ligados ao núcleo parisiense. Perguntei isso a Jean-Claude Bernardet após a sessão, mas ele limitou-se a estranhar que Sylvie tenha no filme um papel bem mais destacado que o que sempre teve na história da Cahiers.

Entre os episódios relembrados por críticos como Pascal Kané, Pascal Bonitzer, Jacques Bontemps e Bernard Eisenschitz, estão a mobilização da revista contra a censura a A Religiosa  (filme assinado por Jacques Rivette, diretor da revista), a campanha em defesa de Henri Langlois e a mostra de filmes independentes de que participou A Falecida, de Leon Hirszman. As fronteiras entre crítica e teoria também são debatidas, contando com exemplos de trechos de textos lidos em off e imagens de capas e páginas da revista.

O título do filme provém da recomendação dos críticos para que determinado filme fora de cartaz fosse visto de qualquer maneira, mas com a ressalva “se possível”, em função da dificuldade de se obter cópia. Era a expressão de uma época em que a Cahiers realmente ditava os caminhos da cinefilia mundial. O doc se encerra com um letreiro informando que em 1973 a revista passou a ser editada por Serge Daney e Serge Toubiana, e sucessivamente por outros nomes até pertencer atualmente a um grande grupo editorial, Phaidon. Nas entrelinhas, lemos que a Cahiers nunca mais foi a mesma daqueles anos loucos. Oui, absolument.

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